O mar estava calmo — mais calmo do que devia. Mas Calico Jack n?o notou. N?o por distra??o. Ele apenas n?o levava mais a realidade t?o a sério.
Com o peito estufado, o casaco puído de capit?o balan?ando com o vento e o pesco?o em permanente desacordo com o resto do corpo, ele observava o horizonte como quem acredita que o mundo ainda aguarda seu sinal para girar. Já tinha se acostumado com a tens?o na nuca, como alguém que se adapta a uma bengala ou a uma mentira longa demais. Era só parte da sua silhueta agora. Um charme assimétrico.
— Mary, minha flor do caos, essa brisa é natural ou você deixou escapar de novo?
A risada veio na mesma cadência de sempre — ele próprio a ensaiara tantas vezes que já parecia espontanea. Se virou ent?o com elegancia, gesticulando em dire??o ao navio à direita.
— Primeiro navio, vela de bombordo trêmula demais! Endireitem ou v?o virar sopa de água doce! — berrou, a voz forte ecoando pelo convés e se perdendo sem resposta. — E me tirem aquele estandarte! N?o estamos aqui pra dar show, estamos aqui pra lembrar que o mar tem dono!
Nenhuma figura correu. Nenhum grumete respondeu. Mas, poucos segundos depois, as velas realmente mudaram de posi??o — rangendo sutilmente enquanto se esticavam com mais tens?o. Jack assentiu, satisfeito.
— Isso, isso. N?o é difícil, vejam! Basta um pouco de brio e menos rum — disse, balan?ando um dedo no ar como um velho professor.
Virou-se para a esquerda, onde Anne estava “sentada”, encostada na amurada, as m?os apoiadas sobre os joelhos e um len?o florido cobrindo a testa. Seu rosto, mesmo imóvel, parecia carregado de julgamento.
— Ah, por favor, Anne, n?o comece com esse olhar de novo — murmurou, cruzando os bra?os. — Eu mandei afundar aquele gale?o porque era a decis?o certa, e você sabe disso.
O capit?o endireitou o corpo como se estivesse se preparando para um bate-boca.
— "A decis?o certa, Jack?" — respondeu, agora em um tom feminino for?ado, agudo e debochado. — "Você disse que queria dar um susto neles, n?o que ia arrancar metade do casco com um tiro de advertência."
Ele respondeu à própria encena??o com um riso curto.
— Ah, exageros! Palavras ditas no calor do momento! — E, como se Anne tivesse retrucado, ele inclinou a cabe?a novamente, dando um passo teatral à frente. — "Talvez o calor do momento esteja durando meses", é isso que vai dizer agora, n?o é? Pois saiba que tenho plena consciência do calendário, madame!
Fez uma reverência ir?nica. Depois, virou-se para o outro lado, onde Mary “observava” o convés com olhos semicerrados e express?o de cansa?o.
— Mary, minha flor, diga-me: o que pensa disso tudo?
Sem pausa, ele continuou — agora numa voz mais baixa, ainda feminina, um pouco sonhadora.
— "Acho que deveríamos parar em Tortuga. Estou cansada de sangue no café da manh?."
Jack levou a m?o ao peito, dramatizando um falso pesar. Sua cabe?a pendeu um pouco mais à esquerda com o entusiasmo do gesto, e ele demorou um segundo para realinhá-la com o tronco.
— Cansada de sangue no café da manh?? E depois sou eu o sensível! — sorriu. — Mas está anotado, anotado sim. Vamos pensar em mudar o cardápio.
Atrás dele, as velas de outro navio da frota come?aram a girar. Um estalo breve no convés e uma pequena ancora se soltou do alto. Nada visível indicava quem fez o movimento, mas Jack sorriu como quem acabou de assistir à execu??o perfeita de uma ordem dada.
— Muito bem, muito bem! Marujos, preparem os canh?es para sauda??o silenciosa. E limpem esse convés! Quero ver reflexo de vergonha nas tábuas!
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A brisa aumentou um pouco. Ou talvez tenha sido só ele se movendo rápido o bastante para parecer vento. Com passos largos, subiu até o topo da cabine de comando e girou levemente o leme de um dos navios à esquerda. No horizonte, o navio respondeu. Um leve desvio. Uma nova posi??o.
Jack manteve-se em pé ali, imóvel, firme como um ícone esculpido em delírio puro.
— Anne, Mary... — disse com voz embargada de empolga??o mal contida. — Hoje o mar é nosso. E o amanh?... também será, se as correntes n?o se meterem.
Ent?o, como quem vive num musical só seu, estendeu os bra?os para os céus, seguido por um gesto de agradecimento com a cabe?a para uma multid?o que só ele via, depois baixou o olhar para as mulheres e piscou.
— "Sempre dramático, n?o é, Jack?" — disse, com a voz de Anne.
— Sempre inesquecível, minha querida.
Retornou ao convés com passos seguros, satisfeito, os olhos brilhando com a luz de quem acredita. E o mar seguiu calado, como quem sabe que interromper um espetáculo desses seria de extrema grosseria.
Foi quando Jack estreitou os olhos contra o sol baixo. Ali, um grande navio seguia firme, solitário, a vela arqueada por um vento que ele já julgava particular demais. Era só mais uma silhueta entre tantas, e ainda assim, algo nele acendeu um alarme antigo. Um velho inc?modo no peito, no est?mago — no que restava de seus instintos.
Inclinou o corpo ligeiramente para frente, como se pudesse encurtar a distancia só na for?a do olhar. Os dedos se apertaram contra a amurada, as unhas rangendo contra a madeira.
— Vocês veem isso, n?o veem? — disse, sem se virar para ninguém em particular. — Reconhecem esse perfil... eu reconhe?o.
Silêncio.
— Anne, diga que estou ficando louco — pediu, quase num sussurro.
E ent?o, com voz rouca e feminina, respondeu a si mesmo.
— “Você está sempre ficando louco, Jack. Isso n?o é novidade.”
— Hah! — riu, abruptamente, e depois engoliu a risada como se ela tivesse passado do ponto. — Mas olhem de novo... é ele. é aquele maldito navio de patrulha. O mesmo que nos perseguiu nas Ilhas Lucaias. Só pintaram diferente, achando que eu n?o notaria!
Girou nos calcanhares, puxando o casaco para ajeitar o colarinho com um gesto exagerado.
— Mary! Aviso geral! Est?o se aproximando! Aqueles c?es do Império britanico voltaram. Devem ter perdido a vergonha na cara…
Outro passo. Outro comando.
— Todos aos postos! Canh?es prontos! N?o quero um furo sequer em nosso convés — pausou, sem respirar, como se ouvisse uma obje??o — Sim, mesmo no terceiro navio, idiota! Se quer furar alguma coisa, arrume um barril de rum e enfie sua espada nele!
A brisa puxou a aba do chapéu para o lado, e ele a reposicionou com calma. Estava sorrindo agora. Um sorriso torto, fervendo com a convic??o de alguém que acredita profundamente em sua própria causa.
— Eles acham que podem apagar a liberdade com uniformes e leis... acham que podem derrubar o último capit?o verdadeiro com um barco alugado e uma cara limpa.
Caminhou até o tim?o e pousou as m?os com reverência.
— Deem meia-volta. Rota direta. N?o vamos esperar dessa vez.
As velas reagiram. O navio principal girou com precis?o, e os outros dois, como sombras obedientes, seguiram logo atrás. Três navios vazios, alinhados com a exatid?o de uma frota treinada.
— N?o vamos fugir como da última vez, n?o, senhoras — murmurou, já entrando no tom de discurso — vamos mostrar a eles o que acontece quando se metem com quem n?o deviam se meter.
Mais uma pausa dramática. Depois um gesto breve com a m?o, como um maestro que guia um silêncio. Jack sabia que o dia estava só come?ando, mas sabia também que mais tarde haveria jantar, música e — se ele quisesse muito — uma dan?a com Mary. Ou com Anne. Dependia de qual delas ainda teria um bra?o.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

