“Quem diria que voltaria pra cá t?o rápido.”
Jasmim apoiou as m?os na cintura, girou o tronco e estalou as costas com um som que teria feito qualquer quiroprata chorar de desespero. Os últimos dias tinham sido duros. Chamar de “viagem” seria um elogio, estava mais para uma “tentativa de homicídio da natureza”: chuva demais, ventos demais, barulhos na mata que ela preferia fingir que n?o ouviu — e mesmo assim, estava ali. Inteira. De novo no litoral de S?o Paulo, como se o mundo tivesse se esfor?ado só um pouquinho para manter um senso mínimo de ironia.
Seguiu pela mata sem pausas, olhos colados no ponto pulsante do mapa, aquele maldito farol rubro que tanto irritava quanto orientava. E ent?o, como um cachorro voltando para casa depois de ser chutado, lá estava: Insídia. O lugar que ela mal tinha saído, e já voltava.
“Tá muito melhor do que imaginei…”
Parte dela tinha se convencido de que só encontraria cinzas. Na verdade, n?o lembrava direito de como havia deixado a cidade — pelo menos n?o em um estado mental confiável. As memórias vinham em flashes: o teto quebrado do castelo, o gosto de sangue na boca, a sensa??o de ter sido pisoteada por algo grande.
E, claro, as mortes. Muitas mortes.
Mas ali estava ela: firme, funcional… e mais feia do que antes. Menos viva, mais... contida. Os muros ainda cercavam a cidade, mas agora pareciam decora??o barata. Os port?es? Sumiram. N?o havia soldados vigiando ou bandeiras tremulando. Só um v?o aberto cheio de uma inten??o desconfortável demais para ser chamada de paz.
Quando pisou lá dentro, o ar era ainda pior. Havia puros nas ruas, andando lado a lado com os corrompidos — o que, tecnicamente, seria uma boa notícia. Só que n?o era. Companheiros? Nem de longe. Era como ver dois gatos dividindo o mesmo c?modo: ninguém ataca, mas todos est?o a um espirro de distancia do caos.
O castelo, ou o que restou dele, ainda coroava o alto da cidade como uma lembran?a teimosa de quando tudo girava em torno de Ana. Mas já n?o era o centro. O verdadeiro cora??o agora estava mais abaixo, quase ao nível do povo — e pulsava como um músculo recém-formado.
O Coliseu.
Tudo convergia para o anfiteatro majestoso.
N?o era só a arquitetura que puxava os olhos — embora o tamanho indecente daquilo ajudasse bastante —, mas o burburinho constante, o cheiro insistente de carne e fuma?a, e o tipo específico de música que só existe onde o povo só tem um pingo de esperan?a ou mais nada a perder.
Uma feira se espalhava ao redor como um mar mal delimitado. Como toda boa feira, tinha de tudo: comidas duvidosas, dan?as improvisadas, artesanato com orgulho local, armas afiadas demais para serem decorativas, carca?as semi-tratadas e até drogas — se falasse com as pessoas certas, ou as erradas, dependendo do ponto de vista.
Mas havia também... algo mais.
— Mas que merda é essa… — As palavras escaparam como um solu?o mal contido. Jasmim olhou ao redor, tensa, como se pudesse recolher o som com as m?os.
Ninguém pareceu notar — ou se notaram, fingiram muito bem. Havia olhares, sim, um ou outro mais seco, mais demorado, mas nada que sugerisse um soco a caminho. Ela ainda passava por “irrelevante o bastante para ser ignorada”.
Suspirou, e desta vez n?o se conteve:
— Mas. Que. Porra. é. Essa.
O centro da pra?a diante do Coliseu ostentava um palco elevado, emoldurado por colunas improvisadas de banners com símbolos que pareciam ter sido desenhados por alguém bêbado e convencido. à frente, uma multid?o se apertava em torno de algo que só ficou claro quando Jasmim se aproximou.
Uma vitrine.
N?o uma vitrine qualquer, mas uma fileira de gaiolas com pessoas dentro. Luminárias de mana estavam bem posicionadas para destacar os rostos, placas detalhadas nas frentes e, claro, um preg?o que rodava em alto e bom som.
"80 pratas. Homem. 30 anos. Manca, mas pode lutar. Boa resistência a dor."
"2 ouros. Bestial. 22 anos. Duas vitórias na arena."
"1 ouro e meio. Mulher. 19 anos. Boa presen?a de palco. Arremesso de lan?a com precis?o."
Jasmim franziu o rosto com nojo cético.
— Escravos? — sussurrou, num fio de voz t?o fino que nem ela teve certeza se tinha falado alto o bastante.
Mal terminou a frase quando sentiu o toque de uma m?o em seu ombro. O susto veio antes da rea??o: girou com a m?o já na espada mal forjada que carregava, express?o entre o reflexo e o aviso.
— Quê isso!? S?o gladiadores, minha dama! — disse o sujeito com um sorriso de dentes tortos.
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Vestia-se como quem queria parecer importante, mas só tinha conseguido parecer quente demais para o clima. Cores vivas, um colete com bot?es demais e um colar que provavelmente n?o era dele. Parecia feliz por poder explicar, como um vendedor prestes a apresentar um produto “inovador”.
Jasmim estreitou os olhos. N?o largou a empunhadura da espada.
— Gladiadores. Aham.
— Claro! Campe?es da arena! Orgulho de Insídia! — disse ele, erguendo os bra?os como se fosse puxar aplausos do ar.
Ela n?o respondeu. O olhar vagou de volta para a vitrine, especialmente para a mulher. Jovem demais. Olhos de bicho acuado tentando parecer ferino. N?o estava ali por glória nenhuma.
O homem pareceu notar o inc?modo, mas insistiu.
— Todos voluntários, minha senhora. Todos escolheram lutar! Recebem parte dos ganhos, comida, e se forem bons… fama!
Jasmim grunhiu, desviando do homem com um giro seco do corpo — e, por acidente ou castigo divino, esbarrou com o cotovelo bem no meio do nariz dele. Um estalo abafado seguiu-se de um “ai” ofendido, mas ela já estava a dois passos de distancia, sem inten??o de se desculpar.
A verdade, porém, era que nem sabia ao certo o que a enfurecia ali.
Talvez fosse o cheiro. O som. Ou as placas com pre?os penduradas nos pesco?os. Talvez o sorrisinho do vendedor. Talvez tudo isso somado. Mas, no fundo, sabia que o problema era outro. Era o fato de aquele lugar parecer… funcional.
Insídia n?o só sobrevivia — florescia. Mesmo cheia de rachaduras, ainda estava de pé. Se sentia inútil.
“Minha luta já foi esquecida.”
Cuspiu no ch?o. Pensar no assunto a deixava com mais raiva. Respirou fundo. O cheiro de fritura, suor e ferrugem invadiu as narinas, mas segurou.
"De qualquer forma, n?o tenho escolha", pensou, mais cansada do que resignada. O mapa n?o a deixava em paz, e a voz, mesmo silenciosa agora, n?o lhe dava sossego desde Barbados.
Com passos mais firmes, Jasmim seguiu rumo ao Coliseu.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

