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Capítulo 210 - Rodas

  — N?o é um bom sinal. é melhor pensarmos em um desvio.

  Os dedos de Sérgio tocaram as marcas de pneu no ch?o com um pesar dramático que só ele parecia sentir. N?o precisava ter feito aquilo — serviu basicamente para sujar as m?os —, mas fez mesmo assim. No fundo, sabia que, para quem visse de fora, a cena poderia parecer digna de um detetive fod?o de um filme barato. Era o suficiente.

  — E a Eva!? — Lúcia cruzou os bra?os, um gesto mais automático do que indignado. Estava se cansando do pragmatismo frio do médico. Já tinham passado, em teoria, da metade da viagem. De que adiantava agora se acovardar?

  — Você n?o entende como as coisas funcionam por aqui, crian?a — murmurou ele, limpando as m?os de forma igualmente inútil nas cal?as. — Se tem motos no caminho da capital, pode acreditar que teremos problemas.

  — Acha que somos mais fracos que eles? — brincou Lúcia, girando o pulso no ar como se jogasse palavras ao vento. — E, além disso, o Garm corre pra caramba. Motos conseguem voar pelo meio do bosque? Muito fácil fugir!

  Sérgio bufou.

  — N?o é assim, imbecil. Você acha que eles n?o sabem disso? A floresta tá lotada de armadilhas. A gente correr pra lá é justamente o que eles querem. Isso vai continuar até estarmos a poucos quil?metros da capital, onde a seguran?a come?a a apertar pra esse povo.

  — E como vamos fazer um desvio, ent?o?

  O homem co?ou a nuca, encarando a estrada como se a resposta estivesse escrita em algum lugar invisível.

  — Ah, bem... n?o tinha pensado nisso — respondeu, com uma risada seca que n?o disfar?ava o quanto estavam ferrados.

  — Ent?o pronto. Se a gente n?o tem tempo pra voltar e n?o dá pra desviar, é só correr.

  Ela sorriu, revirando os olhos. Um sorriso quase insolente come?ou a nascer em seus lábios.

  Mas o sorriso morreu ali mesmo.

  — Sim, é só correr…

  Sons come?aram a crescer à distancia com a fala de Sérgio, que havia deixado a implicancia de lado. N?o eram fortes ainda, mas tinham a vibra??o de coisas que estavam ficando perigosamente próximas. O médico parou de brincar. Lúcia também. O homem franziu a testa, já em movimento, saltando de volta para as costas de Garm.

  — E correr muito! — completou.

  Garm n?o precisou ser mandado duas vezes. Já tinha ouvido o som muito antes dos humanos, mas até ent?o n?o sabia o que fazer com ele. Agora sabia.

  Disparou.

  A velocidade máxima de Garm era uma experiência desconfortável para quem ainda queria manter os ossos no lugar. Lúcia e Sérgio se abaixaram sem pensar, segurando Eva como podiam. N?o era coragem; era pura autopreserva??o.

  O mundo virou uma massa de verde e cinza que se esticava para trás. Só o som dos próprios corpos sendo castigados pelo vento preenchia os ouvidos.

  "Est?o mais perto."

  O nariz do lobo farejava compulsivamente, tentando entender aquele cheiro forte que se infiltrava nas narinas. Era o mesmo das marcas no ch?o... mas agora mais intenso, quase ácido. Incomodava. Mas, ao mesmo tempo, havia algo bom nele. Era estranho.

  — N?o vou conseguir fugir — rosnou, sem diminuir o passo. A frase escapou como um fio de fuma?a, involuntária.

  As orelhas agitavam no vento, tentando captar o que já n?o precisavam confirmar. Eles estavam sendo alcan?ados. E rápido.

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  Garm estranhava a sensa??o. Desde que se tornara “forte” — pelo menos no que o seu conceito de for?a permitia — nunca ninguém o havia superado em velocidade. Correr era seu domínio. Sua garantia. Seu pequeno pacto silencioso com o mundo.

  Mas hoje, isso mudou. Ia ser alcan?ado, e estava odiando cada segundo disso.

  Lúcia, concentrando-se ao perceber que o lobo n?o estava falando por dramatiza??o barata, ergueu as m?os. N?o dava para fazer muita coisa a essa velocidade. Pensar já era difícil; manipular, um exercício de teimosia. Mesmo assim, pequenos blocos de asfalto come?aram a se levantar do ch?o, como se o próprio caminho estivesse tentando criar obstáculos improvisados.

  N?o adiantou.

  Surgindo das folhagens laterais — e trazendo um cheiro desagradável de metal quente e mana azeda — duas grandes motocicletas surgiram. Ou melhor, veículos que, por educa??o ou excesso de boa vontade, poderiam ainda ser chamados de motocicletas. Mas seria pedir demais da imagina??o.

  Eram grandes quadrados metálicos, feios com empenho, cobertos por runas que pareciam ter sido gravadas na pressa, mas que ainda assim vibravam com energia suficiente para fazer o ch?o ressoar. Atrás de cada uma, preso por ganchos e hastes improvisadas, um aquário — sim, um aquário — cheio de criaturas de aspecto lamentável. Algumas ainda se mexiam em espasmos nervosos. Outras já eram só carca?as semiapodrecidas, mas todas, vivas ou mortas, emanavam a mesma essência: mana de suplemento, combustível vivo para alimentar aquelas aberra??es sobre rodas.

  Os motoristas estavam focados, enfiados até as sobrancelhas em óculos grossos e capuzes gastos que provavelmente n?o protegiam de nada além da autoestima. Talvez servisse para o psicológico — como um amuleto que todos sabiam ser inútil, mas que ainda assim seguravam firme.

  Já os passageiros na garupa tinham fun??es mais específicas. Gritavam. Muito. E n?o exatamente poesia. As ofensas eram criativas na medida da decadência humana, e n?o foram poucas as vezes em que a palavra "putinhas" chegou, clara como um sino, até os ouvidos do grupo. Garm também n?o escapou. Em dado momento, Lúcia teve a estranha honra de ouvir alguém chamar o lobo de “tapete mijado ambulante”. Estava oficialmente registrado.

  Até ali, tudo dentro do esperado. Os inimigos eram barulhentos e visivelmente mais lentos. Com sorte, levariam meio-dia para alcan?á-los — ou nem isso, se a mana deles se esgotasse primeiro, o que era uma aposta razoável considerando o peso mórbido que carregavam nas traseiras.

  O problema real veio em seguida.

  Os passageiros da parte de trás, sem aviso, levantaram as m?os com sorrisos largos demais para serem saudáveis. Em frente às motos, se manifestaram brocas — n?o simples cones giratórios, mas verdadeiras esculturas de metal, flutuando de forma agressiva. Cada broca era entalhada com detalhes finos, marcas geométricas que canalizavam mana com precis?o absurda. Giravam t?o rápido que o ar ao redor parecia rasgar.

  O primeiro toque nas barricadas de Lúcia foi o suficiente. Seus muros de asfalto, levantados às pressas, cederam como papel molhado diante de tais manifesta??es.

  Ela arregalou os olhos. N?o era só poder bruto; era técnica refinada. Como manipuladora, sabia reconhecer a diferen?a. Conseguiria replicar? Talvez, em teoria. Mas fazer com aquela desenvoltura, naquele ritmo, com aquele desprezo quase pregui?oso? Nem ferrando.

  Sua mente se expandia em tempo real, como se o próprio orgulho estivesse sendo empurrado para fora do corpo a pontapés. Até ali, o máximo que vira foram manipuladores ca?adores de rank C — eram bons, mas mesmo assim, a maioria n?o era melhor que ela. Orgulhava-se disso.

  Mas aquilo… aquilo era outro nível.

  Pela primeira vez, Lúcia, a garota prodígio, a guerreira nata, manipuladora sem igual, sentiu a pontada inc?moda de algo que nunca havia sentido: inferioridade.

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  Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!

  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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