— Se continuar nesse ritmo, nos pegam em cinco minutos…
Lúcia já n?o tentava manifestar nada. Nem pedras, nem paredes, nem desculpas. Com um gosto amargo na boca — e n?o apenas da poeira no ar —, aceitou que n?o conseguiria pará-los daquele jeito.
— Você pode lutar? — perguntou, virando-se para Sérgio com um olhar que ainda carregava um resto de esperan?a, talvez por reflexo.
O homem respirou fundo. Ainda abaixado sobre o lombo do lobo, fechou os olhos por um segundo. N?o foi dramático. Só resignado.
— Lutar, n?o. Mas posso fazer... alguma coisa.
— “Alguma coisa” n?o inspira confian?a.
Sem responder, o médico meteu a m?o no bolso. Tirou um punhado de folhas amassadas, hesitou — talvez ponderando se aquilo era mesmo uma boa ideia — e, com a decis?o de quem já superou a dignidade faz tempo, enfiou tudo na boca. Mastigou com uma voracidade que sugeria tanto desespero quanto hábito.
— Garm, diminui a velocidade. Você cuida do resto.
O lobo lan?ou um olhar breve para trás, com um quê de interroga??o. N?o porque n?o soubesse o que fazer, mas porque ainda esperava, contra toda lógica, que alguém tivesse um plano melhor. Como ninguém se pronunciou, obedeceu. Ser pego com um plano ainda era melhor do que ser pego correndo em círculos.
— O que você tá fazendo? — Lúcia perguntou, relutante. Preparava-se para voltar a revidar da forma que pudesse — mana bruta, gritaria, quem sabe mordidas —, mas Sérgio apenas estendeu o bra?o e baixou as m?os dela.
— Calma. Só vamos ter uma chance.
— Explica melhor, caramba!
— Segue o jogo, garota.
As motos finalmente os alcan?aram. Vieram como c?es que sabiam que a presa já tinha parado de correr. O médico levantou as m?os com exagerada docilidade, como quem fazia quest?o de parecer inofensivo. Lúcia, contrariada, fez o mesmo. Pensou brevemente em inflamar o próprio corpo e explodir com tudo — um plano ruim, mas eficiente. Garm rosnou, mas seguiu o comando silencioso da companheira, abaixando o corpo para que todos pudessem descer com relativa seguran?a.
Os perseguidores, ainda com altas risadas, finalmente cercaram o grupo.
— Parece que n?o s?o t?o burros quanto pareciam de longe! — gritou um dos manipuladores ao descer da moto com um salto que n?o era nem ágil, nem elegante, mas que fazia barulho suficiente para impressionar. — Vamos, larguem tudo e fiquem calmos. Ninguém quer sangue aqui.
— Amigo, olha pra gente — come?ou Sérgio num tom descontraído, ainda mascando a mistura vegetal com o entusiasmo de um bode. — Tá vendo alguma coisa pra largar? Eu e minhas filhas estamos só de passagem. Ouvimos que hoje em dia dá pra recome?ar a vida na capital.
O homem franziu o cenho por trás dos óculos absurdamente grossos. Sua fei??o estava escondida, mas o deboche n?o — ele escorria até pelas pontas dos dedos, enquanto se apoiava no guid?o com a pose ensaiada de quem já repetiu muitas vezes situa??es como essa.
— N?o parecem suas filhas. Quê que se acha, Bet?o?
— é, filha o caralho — comentou o segundo, rindo de um jeito que envolvia mais catarro do que charme. — Essa aí de cabelo curto parece que come gente no café da manh?. A outra... bom, a outra parece morta. Cê tá me parecendo a porra de um escravista, irm?o.
— Adotivas! — rebateu Sérgio, quase ofendido. — Sabe como s?o esses tempos conturbados. A gente tem que cuidar das crian?as. Elas s?o o futuro. Ou, pelo menos, s?o o presente em velocidade decrescente. E sim, ela tá meio morta, o que é uma pena. Tem dias em que ela é t?o simpática.
O primeiro motoqueiro ignorou o comentário e se virou para o colega de trás novamente.
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— Acha que vale alguma coisa?
— A morta?
— A outra.
— Só se vier com instru??es de uso.
O grupo riu. Um riso esticado, meio nervoso, meio ansioso. Riam porque podiam, e porque estavam em maioria, e porque era isso que se fazia antes de espancar ou saquear alguém: ria-se um pouco, para aquecer o clima.
— Tá bom, chega de enrolar — disse o que parecia ser o líder, ou pelo menos o mais falante. — Eu gastei a carni?a toda perseguindo vocês, ent?o de algum jeito v?o me pagar. Qualquer merda serve. Armas, amuletos, peda?os desse bicho grande... até livro, se for rúnico.
— Ou com figuras — acrescentou o segundo, rindo da própria piada. — Aquele da fada peituda era bom.
— Cala a boca, já disse que aquilo era um manual de rituais, n?o pornografia. A fada tinha fun??o simbólica.
— Simbólica o cacete, tu lia escondido.
— Era didático.
— Didático é teu cu.
— Tá, Bet?o, só cala a boca… bom, ou com figuras — acrescentou o líder, revirando os olhos. — Se n?o, vai na mana — murmurou, fazendo um gesto de cortar na própria garganta.
Sérgio levantou um dedo, como se fosse responder. No entanto, após alguns segundos de espera, apenas riu baixo.
O líder, franzindo o cenho, se aproximou erguendo o punho, mas parou. Fungou. O cheiro no ar estava mais forte agora, mais azedo. Era uma coisa estranha, com um toque amargo no fundo da garganta. N?o deixava um sabor ruim, mas também n?o parecia saudável. O tipo de aroma que faz você suspeitar que algo está errado antes mesmo de saber o quê.
O primeiro a reagir foi o nariz. Depois os olhos come?aram a lacrimejar. O motoqueiro olhou para o companheiro — que, torcendo a boca, já co?ava o nariz como um cachorro com rinite.
— Que porra é essa?
O silêncio que veio em seguida era daqueles que só termina com algo ruim ou muito ruim. Mas acabou com um espirro. Um espirro de Garm.
Forte, sonoro, e úmido o suficiente para ser sentido em três dire??es.
Todos se entreolharam, desta vez com menos sarcasmo e mais cálculo. O tipo de troca de olhares que acontece logo antes de uma burrada coletiva: o início de um tiroteio mal pensado, uma fuga apressada ou, como parecia ser o caso ali, uma decis?o que todos se arrependeriam em silêncio, se tivessem tempo para isso.
Sérgio ainda mascava, sorrindo com uma serenidade que ninguém ali achava confortável. Ent?o, sem qualquer aviso, o médico caiu. N?o trope?ou, n?o cambaleou, n?o reclamou da coluna. Simplesmente tombou para o lado com a rigidez de uma estátua empurrada da prateleira. Um baque seco e antinatural. A respira??o cessou, os olhos viraram e o corpo endureceu em uma velocidade inumana.
O líder dos bandidos hesitou por um instante. Depois, como era de se esperar de alguém com mais bravata que bom senso, se aproximou. Seus passos foram se tornando mais lentos à medida que o cheiro se intensificava — agora mais ácido, quase metálico, como se o próprio ar estivesse sendo empurrado para fora do corpo do médico. Ele tocou o velho com a ponta da bota, talvez esperando uma rea??o, um espasmo, qualquer coisa.
O que veio foi pior.
O cheiro subiu como um tapa na cara de todos os presentes, e o motoqueiro recuou com uma careta sincera, tossindo alto. Seus olhos se arregalaram antes da boca.
— O filho da puta é a porra de uma variante! — gritou, cuspindo entre as palavras. — Matem os desgra?ados! Rápido!
As palavras ainda ecoavam quando Lúcia, até ent?o em pé e claramente perplexa com o que tinha acabado de ver, também caiu. N?o fingiu. N?o teve tempo. Apenas desabou, como se um interruptor tivesse sido desligado dentro dela.
Os motoqueiros já tinham descido das motos, todos eles. Armados com pequenos machados e uma confian?a que n?o combinava com a situa??o, come?aram a avan?ar com pressa. Claro, n?o adiantou.
Um a um, come?aram a cair. No come?o, trope?os sutis. Depois, quedas completas. Baques abafados contra o asfalto ou contra a própria perna do companheiro da frente. Alguns ainda tentaram gritar, ou balbuciar qualquer ofensa de rodapé, mas a garganta já n?o respondia. O mundo ao redor os engoliu com a mesma indiferen?a com que os havia tolerado até ent?o.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

