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Capítulo 239 - Ad Astra Per Scientiam

  — Caralho, tá realmente intacto.

  N?o era exagero. Em volta, Leviathan exibia a ferrugem com orgulho e a miséria sem pudor, mas ali, a biblioteca parecia recém-saída de um sonho meticuloso.

  O bloco ocupava meia quadra, com base octogonal e três andares que subiam em degraus, cada plat? coroado por janelas em arco e vitrais limpos demais para aquela vizinhan?a. A pedra — basalto escuro polido — ainda guardava brilho, e as jun??es, um rejunte de liga esverdeada, n?o mostravam a menor rachadura. No beiral, um detalhe que Ana n?o se lembrava: gárgulas em forma de peixes e aves estranhas que miravam o horizonte, como se vigiassem as nuvens e o que quer que estivesse nelas. Sobre o portal, quase escondida na sombra da moldura, uma inscri??o mínima permanecia: Ad astra per scientiam.

  — Para as estrelas através do conhecimento — Ana murmurou, mais para si que para os outros, e a frase assentou nela com um reconhecimento antigo. Tocou a pedra, sentindo a temperatura levemente mais baixa que o ar.

  A porta dupla tinha trilhos embutidos e ferragens em perfeito estado. Bastou um encostar de ombros para ceder um palmo e revelar o sagu?o: um átrio hexagonal banhado por claraboias e os t?o impressionantes corredores radiais com prateleiras móveis. N?o havia passado tanto tempo nessa biblioteca quanto gostaria, mas ainda guardava boas lembran?as.

  — Caramba… — escapou em tom honesto. — Eu devia ter vindo antes.

  Encostou as duas m?os nas portas para abrir por completo.

  “Vai ser engra?ado se ele realmente estiver aqui”, pensou — e teve a resposta antes do segundo passo.

  — Selvagens n?o têm o direito de ver os meus livros!

  A voz n?o veio de dentro, mas sim de trás de uma das colunas externas, seguida de risos secos e o som de botas marcando território. Gente surgiu das sombras e dos becos como se a biblioteca fosse uma fogueira e eles, mariposas armadas: lan?as curtas, mosquetes consertados com arame, olhos febris que, por incrível que pare?a, também machucavam.

  Ana suspirou de leve quando o viu.

  “A idade n?o perdoa”, deixou escorregar no pensamento junto de um sorriso melancólico.

  O homem que se destacou do grupo tinha trinta e poucos e o peso de vinte a mais. Tran?as longas, mal contidas, batiam na cintura a cada passo. Onde deveria haver um olho esquerdo, havia um monóculo enxertado: múltiplas lentes em aros concêntricos, fixadas na carne por rebites escuros — grotesco, funcional, obcecado. A pele era um pergaminho de cicatrizes em forma de runa; frases cravados a ferro cobrindo bra?os, peito, clavículas. Havia músculos também, muito mais do que Ana se lembrava.

  Seria possível ver ainda mais se n?o fossem os dez livros que pendiam em correntes dos ombros, cintura e antebra?os com suas páginas assobiando ao vento.

  — Bibliotecário? — Alex prendeu o ar sem querer.

  O olho bom do homem arregalou, e a risada voltou, mais alta. Ele girou sobre o próprio eixo, as correntes cantando com o movimento, e avan?ou. Todos que estavam com ele avan?aram um passo também.

  — Quanto tempo n?o me chamam assim! — A alegria estourou num segundo, secou no seguinte. O rosto endureceu, o monóculo clicou ao ajustar as lentes. — Quem s?o vocês?

  Ana levantou a m?o, impedindo que qualquer um falasse. Seu olhar cruzou com o de Alex antes de voltar à figura à frente.

  — Realmente n?o lembra de nós, Brayner? — O sorriso veio com uma polidez cuidadosa, o mais carismático que ela conseguia ser. O mantendo no rosto, deu um passo à frente.

  Stolen from its original source, this story is not meant to be on Amazon; report any sightings.

  O bibliotecário estreitou o olhar, levou a m?o ao queixo numa pose estudada, rodeou a dupla bem devagar. Tocou em Alex e recuou o dedo ardido com uma careta curta. Voltou a encarar Ana.

  — Ironia Divina… Ana?

  — Nós mesmo, velho amigo — A rainha caída estendeu a m?o.

  Ele quase seguiu o gesto. A m?o subiu, a express?o abriu como se realmente estivesse feliz, a memória piscou por trás daqueles olhos cansados. E ent?o a cidade atrás da antiga companheira voltou ao seu foco. Passou por cada rosto do bando atrás dela, pelos dedos firmes nos gatilhos, e até por Niala sobrevoando lá no alto. Por fim, viu as botas sujas de sangue vivo.

  — Achei que eu já tinha deixado claro que n?o quero mais festivais na minha cidade. — A palma de Brayner bateu na m?o de Ana com for?a.

  — Isso já n?o é comigo, velho amigo. — Ana manteve a m?o erguida, mas também ergueu uma sobrancelha. — Sua cidade?

  — SIM, MINHA! — berrou de repente o bibliotecário. Os vasos de seu único globo ocular se avermelharam tanto que pareciam prestes a explodir. O monóculo clicou duas vezes. — EU OS SALVEI. EU DEI A VERDADEIRA LIBERDADE PROS QUE QUEREM, E PROTE??O PARA OS QUE BUSCARAM POR MIM.

  — Mas isso aqui tá um inferno… — Alex disse, cruzando os bra?os.

  — Um inferno? N?o, longe disso. Gosta de matar? Que viva uma dura vida no mercado de carne. Quem quer prazer pode ca?ar facilmente algumas putas em nossos bordéis! Quer venerar a porra de um deus qualquer? Vá espalhar suas loucuras em seu devido canto! — Abriu os bra?os em um grande gesto, fazendo as correntes voltarem a tintilar. — Quer paz? Sente e leia ao meu lado.

  — Isso é só anarquia disfar?ada.

  — N?o. — Ele sorriu com a metade que ainda sabia sorrir. — N?o, n?o, n?o. Pessoas s?o livros abertos. Lidas direito, ficam felizes. Um caos organizado já n?o é caos. Anarquia é o que vocês andam vendendo com as suas festas de morte. A baleia sofre, o povo sofre! — O monóculo clicou de novo, dando mais três voltas. Brayner ro?ou a lombada de um volume preso ao ombro, puxou-o com reverência. — E o povo n?o quer mais sofrer.

  Ele come?ou a ler.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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