— Podem pelo menos soltar as cordas?
— N?o. — A resposta de Alex veio sem floreio. Ele puxou e obrigou Duque e Carlos a acelerarem o passo.
Carlos resmungou, mas n?o testou a sorte. Seguiu no ritmo apressado do pirata.
Ana vinha atrás de bra?os cruzados. Os olhos n?o estavam nos dois prisioneiros, nem nos tripulantes que os acompanhavam, confusos o suficiente para manter silêncio, tampouco em Niala que sobrevoava alto, frustrada pela possibilidade de Collectio cair ao perceber que o roubo de mana da embarca??o n?o conseguia, nem de longe, competir com o enorme consumo da baleia.
Olhava as casas.
Diferente do que imaginaram, n?o estavam vazias. Longe disso. Havia vida por toda parte; n?o a vida bonita, outra que nasce dos v?os sujos. Rostos fundos, olhos opacos espiando por trás de colunas rachadas. Cortinas improvisadas que se afastavam um dedo e voltavam. Crian?as fu?ando sacos de lixo com incrível competência de quem sabe separar o que mata do que só adoece. Quando o grupo se aproximava, sumiam como pardais: três passos, um olhar, sumi?o.
Uma delas, uma garota de n?o mais de sete anos e um pouquinho de coragem emprestada da ignorancia, n?o correu. Ficou parada no meio da passagem, só os dedos mexendo, encarando um por um. Ana retribuiu o olhar por um segundo que durou mais que o necessário.
— Pega. — A rainha mercenária bufou e um peda?o de carne seca foi jogado em um arco. Levava no bolso por conveniência, mas n?o pretendia ficar tempo o suficiente ali para a fome bater de verdade.
— N?o alimente eles — Duque disse lá da frente. A resposta foi mais um pux?o de Alex, mas Ana levantou uma m?o.
— E por quê?
O homem apontou com o queixo. Dos cantos mais escuros, outros olhos brotavam, um a um, como fungos depois da chuva.
— S?o baratas. Alimenta uma, aparecem as outras.
O ar ficou mais denso. Dois, três passos adiante, a sombra da arcada pareceu encolher. Um adolescente encostou um fac?o no peito. Uma mulher magra fez um gesto rápido. A cidade, inteira, aproximou-se meio palmo.
Ana respirou fundo e voltou a andar. Deu um passo. O segundo n?o veio: algo respingou na bota. Sangue. Pouco, mas recente. Virou a cabe?a devagar — n?o sentia perigo ali, n?o tinha motivos para se apressar. Onde a menina estava, uma po?a carmim se alargava obediente. O corpo jazia a um metro e meio, torto de um jeito n?o muito atrativo. A carne seca, essa, já n?o se via.
— Eu avisei. — Duque deu de ombros, sem culpa. Carlos baixou o rosto.
Ana apoiou as m?os na cintura. Passou os olhos por tudo com uma vis?o mais dura.
— Matem todos até acharem a minha carne — disse sem elevar a voz.
Dessa vez, Alex n?o perguntou o habitual “tem certeza?”. Largou os guardas amarrados e fez um gesto curto para os piratas. O que se seguiu foi o som do a?o sendo desembainhado.
“Ele tá se tornando um ótimo líder”, pensou Ana, aprovando com um aceno quase imperceptível, enquanto os passos pesados come?avam a entrar nas vielas.
Aproximou-se dos dois e, num pux?o seco, estourou as cordas.
— Parece que suas explica??es n?o foram suficientes. Venham comigo.
— N?o tem o que explicar. Tá tudo fodido. — Carlos tomou a frente enquanto passava as m?os nos pulsos machucados.
— Já vi cidades fodidas. — Ana retomou o passo. — Cidades fodidas n?o v?o de uma utopia para um inferno em cinco anos. Isso aqui é pior.
— Cinco anos? — Duque ergueu os olhos, espantado. — A senhora já veio aqui antes?
O respeito deslocado do jovem guarda a fez rir de leve.
— Já, sim. Mas isso já n?o importa. — Manteve o passo firme. — Quero uma explica??o decente. E rápida. N?o tenho motivos pra manter os dois respirando se continuarem se recusando a falar.
— E desde quando os desgra?ados de Mare Euphoria deixam alguém vivo? — O guarda mais velho resmungou baixo, mas n?o o suficiente para esconder. — Faz um favor pra todo mundo e termina logo com essa palha?ada.
Duque empalideceu, mas engoliu a saliva e acenou em concordancia. Resistiu o quanto p?de, no entanto, relutante, come?ou a falar.
— N?o tem muito segredo, mo?a. A culpa é de vocês. Desde que o Pedro morreu, tudo come?ou a…
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— Pera, pera, pera — A rainha mercenária olhou pra ele. — O Pedro tá morto? O taverneiro?
Carlos fuzilou o companheiro com os olhos, mas Duque continuou.
— Tá sim. Morreu no festival do ano passado. O tiro n?o tava nem mirando nele, foi puro azar.
— Puta merda… — Ana apertou as bochechas, conteve o sorriso que n?o combinava com a situa??o. — Se aquela idiota soubesse disso…
Balan?ou a cabe?a, dispersando os pensamentos inúteis.
— Bom, quem tá no comando hoje em dia?
— Depende. Aqui no Lix?o… ninguém de verdade. — Duque olhou em volta, como se o lugar tivesse ouvidos.
— Lix?o?
— Foi o nome que mais pegou. Antes era o mercado de carne, mas n?o sobrou muita carne pra venderem. — Carlos cedeu, a contragosto. — Quando o Pedro caiu, a distribui??o de comida caiu também. Muita coisa desceu pra parte baixa da cidade, pouca coisa subiu. Aqui é onde o resto dos outros distritos… fermenta.
Ana estalou os dedos, ouvidos ainda atentos.
— Aqui, se prestar aten??o suficiente, tu tá segura. — Carlos suspirou e apontou uma viela que sumia no breu. — Se seguir pro antigo port?o da prefeitura, vai trombar com a Confraria do Pulm?o Quieto. Mesmo no festival, n?o recomendo ir lá. N?o mexem com quem n?o mexe com eles.
Ana estalou a língua. O guarda continuou, agora apontando para o mercado central.
— Lá fica a Família. Bom… também n?o é um lugar legal.
Ana riu de canto.
— ótimo. E vocês s?o de onde?
— Ala norte.
— Só “ala norte”? Nenhum nome bizarro e um aviso dramático?
Carlos sorriu de verdade pela primeira vez. Duque, logo ao lado, sorriu junto.
— N?o tem muita coisa pra dizer sobre aquela parte. Se quiser atacar, é realmente o melhor lugar. Mas se encostar na biblioteca… você vai morrer
Ana levantou uma sobrancelha e massageou o rosto, mas os dentes apareceram mais uma vez. Os músculos das bochechas já doíam de tanto que estava sorrindo hoje.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

