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Capítulo 243 - O Brinde

  Amélia entrou quase caindo.

  O rosto estava machucado, mas o que mais chamava aten??o eram as manchas que n?o eram dela — fuligem e restos alheios. A respira??o estava ruidosa.

  Do ch?o, Ana ergueu o olhar devagar.

  “Eu tinha mandado aqueles idiotas barrarem todo mundo.”

  Suspirou.

  — Tá fazendo o que aqui?

  Amélia apoiou as m?os nos joelhos e levantou um dedo, pedindo tempo. N?o conseguia puxar ar suficiente para falar. Ana esperou, paciente dentro do possível, e for?ou um sorriso torto.

  — As coisas ficaram… caóticas! — disse Amélia, enfim, com um brilho orgulhoso demais para alguém naquele estado.

  — Mas deu certo? — Ana perguntou, seca.

  — Deu sim… quer dizer, mais ou menos…

  — Mais ou menos?

  — é que… n?o exatamente vencemos, mas… — deu de ombros, confusa consigo mesma — só deu certo.

  Ana se apoiou nos cotovelos e ergueu o tronco com cuidado. O mundo inclinou por um segundo, mas voltou ao lugar.

  — E o que você tá fazendo aqui? — perguntou. — N?o te mandei ficar no comando dos avi?es?

  Amélia apertou os punhos. O sorriso voltou, agora menor, meio envergonhado.

  — No fim eu fiquei na reserva. A Catarina apareceu em um dos avi?es sem avisar — fez um gesto circular com as m?os, como se tentasse organizar o caos no ar. — Ela quis tomar a frente…

  Parou de repente.

  — Ah. é por isso que eu t? aqui. Ela tá vindo. Quer falar com você.

  Só ent?o Amélia pareceu enxergar Ana de verdade — coberta de sangue, estendida no ch?o, o cheiro pesado ainda pairando no ar. Deu um passo à frente, hesitante.

  Ana notou.

  — N?o liga pra isso. Já resolvi. — Com mais esfor?o do que demonstrou, se sentou na cadeira. — Manda ela embora. Eu entrego as grava??es mais tarde.

  — Eu tentei — Amélia respondeu rápido —, mas… ela insistiu em entrar.

  Ana a encarou por alguns segundos longos demais. Os olhos se estreitaram, frios, avaliando.

  — Me ajuda a vestir um casaco — disse enfim. — E me leva até a sacada. Ela n?o pode sentir esse cheiro de morte.

  Amélia piscou, confusa, mas assentiu.

  Com cuidado excessivo, passou os bra?os de Ana sobre os próprios ombros e a colocou de pé. O casaco estava longe do ideal — manchado, gasto —, mas serviu. Abotoado, ocultava o suficiente da cirurgia improvisada para enganar um olhar apressado.

  Vestida, Ana agarrou o cabo da cruz negra. Cada passo até o pequeno espa?o aberto ao fundo da cabine parecia mais longo do que deveria. Ao alcan?ar o parapeito, firmou as m?os e ajustou a postura com o resto de dignidade que lhe sobrava.

  Cuspiu o sangue que ainda tinha na boca, deixando-o desaparecer nas nuvens abaixo.

  — Vai até a Niala — disse, sem olhar para trás. — Manda ela decolar. Só a taverneira entra. Barre qualquer pirata que tentar vir junto. Expulse sem dó.

  Amélia hesitou.

  — Você vai… ficar bem?

  Ana sorriu de canto, cansada demais para responder. O olhar voltou para o vazio além da sacada enquanto a afastava novamente com um balan?ar de dedos.

  A guerreira mal havia saído quando Ana ouviu botas pesadas se aproximando — passos firmes, quase dan?antes, sem pressa alguma. O som vinha acompanhado de um assobio baixo, desafinado em um tom que se recusava a tratar aquilo como um ambiente de guerra.

  Ana n?o se virou de imediato.

  Só quando a presen?a já ocupava o espa?o ao lado da sacada é que inclinou o rosto num cumprimento curto. O sorriso cravejado que recebeu em troca, por algum motivo, tinha um brilho particularmente irritante hoje.

  — Ent?o é aqui que a rainha sangra — disse Catarina, apoiando os cotovelos no parapeito como se estivesse numa varanda qualquer. — Confesso que esperava algo mais… dramático.

  Ana grunhiu. Aceitou a garrafa que a taverneira estendia sem pedir permiss?o. Gin barato. O rótulo estava parcialmente arrancado, a tampa empenada.

  — O que você tá fazendo aqui? — perguntou, antes mesmo de beber.

  — Vim ver. — Catarina deu de ombros. — Sua confian?a foi… inspiradora.

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  Ana levou a garrafa à boca. O gole desceu queimando tudo pelo caminho, raspando a garganta, afundando pesado no est?mago. Fez uma careta mínima, quase imperceptível.

  — Inspiradora o suficiente pra ignorar o que combinamos?

  — Inspiradora o suficiente pra eu n?o querer assistir tudo por uma tela. — Catarina sorriu de lado. — Filmes mentem. Olhos n?o.

  Ana soltou um som baixo, impaciente, e bebeu de novo. N?o queria conversar. O corpo ainda reclamava em ondas silenciosas, e sustentar aquela postura já era trabalho demais.

  — Você fez um bom trabalho — continuou Catarina, sem se ofender com o silêncio. — N?o achei que fosse realmente conquistar espa?o lá em cima.

  A frase parecia elogio. O olhar, n?o.

  Ana percebeu a aten??o demorada na faixa que cobria seu olho. N?o desviou o rosto. Apenas bebeu mais um gole.

  O barco tremeu de leve quando voltou a ganhar altura, alinhando-se ao lado da baleia. A criatura avan?ava majestosa, lenta, imensa demais para fazer sentido. As nuvens se partiam ao redor do corpo colossal.

  — N?o é incrível? — comentou Catarina, observando a cena com genuíno fascínio.

  — é — respondeu Ana. — Mas eu n?o gosto de baleias.

  Catarina gargalhou alto, sem conten??o, e levou sua própria bebida à boca.

  — Você é uma jovem estranha.

  Foi ent?o que Ana notou a caba?a de álcool. Um recipiente diferente, trabalhado demais para algo t?o simples. As bordas tinham marcas antigas, o interior refletia a luz de um jeito opaco e um único símbolo vermelho adornava seu centro.

  — Nunca te vi usando isso — disse, indicando com o queixo. — é bonito.

  Catarina acompanhou o olhar.

  — Foi um presente antigo. Só levo quando t? fora de casa.

  — O que significa a runa?

  Catarina riu.

  — N?o é uma runa.

  Ana ergueu uma sobrancelha.

  — Ent?o o que é?

  — Tá escrito “álcool”. — Catarina deu outro gole. — Na língua comum.

  — Língua comum? — Ana repetiu, estranhando.

  — Uma tentativa falha da humanidade — respondeu Catarina, displicente. — N?o vale a pena ligar pra isso.

  Ana sentiu a curiosidade se mexer por dentro, mas a conteve. N?o era hora.

  Foi ent?o que percebeu o gesto e franziu o cenho.

  Sem aviso, Catarina virou a garrafa de ponta-cabe?a.

  — E isso agora?

  — Isso é meu brinde à você. à sua saúde! — O sorriso brilhou outra vez. — Um término do meu agradecimento.

  A caba?a n?o era grande. Esvaziaria em três respira??es, no máximo. Ana arregalou o único olho, desconfiada, mas n?o o suficiente.

  Catarina girou o pulso. O álcool foi lan?ado em dire??o a Ana.

  O reflexo veio antes do pensamento. A cruz negra subiu, interceptando o jato. O líquido incolor atingiu o metal e escorreu, inofensivo.

  Por um segundo.

  O sorriso de Catarina se alargou.

  A caba?a brilhou de leve — um reflexo errado, fora do sol. O álcool ainda suspenso no ar endureceu, cristalizando-se num estalo seco.

  — Nem fodendo… nem fodendo… — Ana riu enquanto o sangue subia pela garganta.

  Vomitou vermelho escuro sobre o parapeito no exato momento em que sentiu a lamina improvisada atravessar o peito sem resistência alguma.

  Catarina a encarou profundamente em seu único olho bom. Com a m?o livre, a empurrou.

  — Repito: você fez realmente um bom trabalho, garota. — A voz era quase gentil. — Agora pode deixar o resto pros mais velhos.

  Observou por um instante o corpo cair, pesado demais para aquele silêncio. Os dedos se fecharam sobre o vento.

  Catarina suspirou.

  O topo dos Andes passava n?o t?o abaixo quanto deveria. O vento subia frio, limpo, até. Ela reparou nisso enquanto, com um gesto simples, jogava também a espada negra deformada para fora da sacada.

  Depois virou as costas.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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