Amélia entrou quase caindo.
O rosto estava machucado, mas o que mais chamava aten??o eram as manchas que n?o eram dela — fuligem e restos alheios. A respira??o estava ruidosa.
Do ch?o, Ana ergueu o olhar devagar.
“Eu tinha mandado aqueles idiotas barrarem todo mundo.”
Suspirou.
— Tá fazendo o que aqui?
Amélia apoiou as m?os nos joelhos e levantou um dedo, pedindo tempo. N?o conseguia puxar ar suficiente para falar. Ana esperou, paciente dentro do possível, e for?ou um sorriso torto.
— As coisas ficaram… caóticas! — disse Amélia, enfim, com um brilho orgulhoso demais para alguém naquele estado.
— Mas deu certo? — Ana perguntou, seca.
— Deu sim… quer dizer, mais ou menos…
— Mais ou menos?
— é que… n?o exatamente vencemos, mas… — deu de ombros, confusa consigo mesma — só deu certo.
Ana se apoiou nos cotovelos e ergueu o tronco com cuidado. O mundo inclinou por um segundo, mas voltou ao lugar.
— E o que você tá fazendo aqui? — perguntou. — N?o te mandei ficar no comando dos avi?es?
Amélia apertou os punhos. O sorriso voltou, agora menor, meio envergonhado.
— No fim eu fiquei na reserva. A Catarina apareceu em um dos avi?es sem avisar — fez um gesto circular com as m?os, como se tentasse organizar o caos no ar. — Ela quis tomar a frente…
Parou de repente.
— Ah. é por isso que eu t? aqui. Ela tá vindo. Quer falar com você.
Só ent?o Amélia pareceu enxergar Ana de verdade — coberta de sangue, estendida no ch?o, o cheiro pesado ainda pairando no ar. Deu um passo à frente, hesitante.
Ana notou.
— N?o liga pra isso. Já resolvi. — Com mais esfor?o do que demonstrou, se sentou na cadeira. — Manda ela embora. Eu entrego as grava??es mais tarde.
— Eu tentei — Amélia respondeu rápido —, mas… ela insistiu em entrar.
Ana a encarou por alguns segundos longos demais. Os olhos se estreitaram, frios, avaliando.
— Me ajuda a vestir um casaco — disse enfim. — E me leva até a sacada. Ela n?o pode sentir esse cheiro de morte.
Amélia piscou, confusa, mas assentiu.
Com cuidado excessivo, passou os bra?os de Ana sobre os próprios ombros e a colocou de pé. O casaco estava longe do ideal — manchado, gasto —, mas serviu. Abotoado, ocultava o suficiente da cirurgia improvisada para enganar um olhar apressado.
Vestida, Ana agarrou o cabo da cruz negra. Cada passo até o pequeno espa?o aberto ao fundo da cabine parecia mais longo do que deveria. Ao alcan?ar o parapeito, firmou as m?os e ajustou a postura com o resto de dignidade que lhe sobrava.
Cuspiu o sangue que ainda tinha na boca, deixando-o desaparecer nas nuvens abaixo.
— Vai até a Niala — disse, sem olhar para trás. — Manda ela decolar. Só a taverneira entra. Barre qualquer pirata que tentar vir junto. Expulse sem dó.
Amélia hesitou.
— Você vai… ficar bem?
Ana sorriu de canto, cansada demais para responder. O olhar voltou para o vazio além da sacada enquanto a afastava novamente com um balan?ar de dedos.
A guerreira mal havia saído quando Ana ouviu botas pesadas se aproximando — passos firmes, quase dan?antes, sem pressa alguma. O som vinha acompanhado de um assobio baixo, desafinado em um tom que se recusava a tratar aquilo como um ambiente de guerra.
Ana n?o se virou de imediato.
Só quando a presen?a já ocupava o espa?o ao lado da sacada é que inclinou o rosto num cumprimento curto. O sorriso cravejado que recebeu em troca, por algum motivo, tinha um brilho particularmente irritante hoje.
— Ent?o é aqui que a rainha sangra — disse Catarina, apoiando os cotovelos no parapeito como se estivesse numa varanda qualquer. — Confesso que esperava algo mais… dramático.
Ana grunhiu. Aceitou a garrafa que a taverneira estendia sem pedir permiss?o. Gin barato. O rótulo estava parcialmente arrancado, a tampa empenada.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou, antes mesmo de beber.
— Vim ver. — Catarina deu de ombros. — Sua confian?a foi… inspiradora.
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Ana levou a garrafa à boca. O gole desceu queimando tudo pelo caminho, raspando a garganta, afundando pesado no est?mago. Fez uma careta mínima, quase imperceptível.
— Inspiradora o suficiente pra ignorar o que combinamos?
— Inspiradora o suficiente pra eu n?o querer assistir tudo por uma tela. — Catarina sorriu de lado. — Filmes mentem. Olhos n?o.
Ana soltou um som baixo, impaciente, e bebeu de novo. N?o queria conversar. O corpo ainda reclamava em ondas silenciosas, e sustentar aquela postura já era trabalho demais.
— Você fez um bom trabalho — continuou Catarina, sem se ofender com o silêncio. — N?o achei que fosse realmente conquistar espa?o lá em cima.
A frase parecia elogio. O olhar, n?o.
Ana percebeu a aten??o demorada na faixa que cobria seu olho. N?o desviou o rosto. Apenas bebeu mais um gole.
O barco tremeu de leve quando voltou a ganhar altura, alinhando-se ao lado da baleia. A criatura avan?ava majestosa, lenta, imensa demais para fazer sentido. As nuvens se partiam ao redor do corpo colossal.
— N?o é incrível? — comentou Catarina, observando a cena com genuíno fascínio.
— é — respondeu Ana. — Mas eu n?o gosto de baleias.
Catarina gargalhou alto, sem conten??o, e levou sua própria bebida à boca.
— Você é uma jovem estranha.
Foi ent?o que Ana notou a caba?a de álcool. Um recipiente diferente, trabalhado demais para algo t?o simples. As bordas tinham marcas antigas, o interior refletia a luz de um jeito opaco e um único símbolo vermelho adornava seu centro.
— Nunca te vi usando isso — disse, indicando com o queixo. — é bonito.
Catarina acompanhou o olhar.
— Foi um presente antigo. Só levo quando t? fora de casa.
— O que significa a runa?
Catarina riu.
— N?o é uma runa.
Ana ergueu uma sobrancelha.
— Ent?o o que é?
— Tá escrito “álcool”. — Catarina deu outro gole. — Na língua comum.
— Língua comum? — Ana repetiu, estranhando.
— Uma tentativa falha da humanidade — respondeu Catarina, displicente. — N?o vale a pena ligar pra isso.
Ana sentiu a curiosidade se mexer por dentro, mas a conteve. N?o era hora.
Foi ent?o que percebeu o gesto e franziu o cenho.
Sem aviso, Catarina virou a garrafa de ponta-cabe?a.
— E isso agora?
— Isso é meu brinde à você. à sua saúde! — O sorriso brilhou outra vez. — Um término do meu agradecimento.
A caba?a n?o era grande. Esvaziaria em três respira??es, no máximo. Ana arregalou o único olho, desconfiada, mas n?o o suficiente.
Catarina girou o pulso. O álcool foi lan?ado em dire??o a Ana.
O reflexo veio antes do pensamento. A cruz negra subiu, interceptando o jato. O líquido incolor atingiu o metal e escorreu, inofensivo.
Por um segundo.
O sorriso de Catarina se alargou.
A caba?a brilhou de leve — um reflexo errado, fora do sol. O álcool ainda suspenso no ar endureceu, cristalizando-se num estalo seco.
— Nem fodendo… nem fodendo… — Ana riu enquanto o sangue subia pela garganta.
Vomitou vermelho escuro sobre o parapeito no exato momento em que sentiu a lamina improvisada atravessar o peito sem resistência alguma.
Catarina a encarou profundamente em seu único olho bom. Com a m?o livre, a empurrou.
— Repito: você fez realmente um bom trabalho, garota. — A voz era quase gentil. — Agora pode deixar o resto pros mais velhos.
Observou por um instante o corpo cair, pesado demais para aquele silêncio. Os dedos se fecharam sobre o vento.
Catarina suspirou.
O topo dos Andes passava n?o t?o abaixo quanto deveria. O vento subia frio, limpo, até. Ela reparou nisso enquanto, com um gesto simples, jogava também a espada negra deformada para fora da sacada.
Depois virou as costas.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

