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Capítulo 244 - Neve Rosada (epílogo)

  — Mestre… tem alguém aqui.

  A voz fina vinha carregada de surpresa genuína, aquela que n?o se ensaia. Lina largou o feixe de lenha na neve com um baque oco e se ajoelhou imediatamente, ignorando o frio que atravessava as cal?as remendadas. à sua frente, quase indistinguível do ch?o, havia um pequeno monte de neve manchado de rosa.

  Ela come?ou a limpar com cuidado excessivo, temendo acordar o que quer que estivesse ali. A neve cedia fácil sob seus dedos enluvados, revelando primeiro um peda?o de tecido escuro, depois uma pele doentiamente branca. Quando afastou o suficiente, o rosto surgiu.

  Lina engoliu em seco.

  N?o era um rosto comum. Mesmo imóvel, mesmo quebrado pela queda, havia algo errado ali. Os tra?os eram finos demais para alguém que tivesse sobrevivido àquela altitude, àquele frio. A faixa manchada cobrindo um dos olhos dava à mulher um aspecto de coisa inacabada, como uma estátua abandonada antes do último golpe do cinzel.

  Um homem grande se aproximou sem dizer nenhuma palavra. Seus passos eram curtos e de alguma forma respeitosos. O vapor de sua respira??o subia lento no ar rarefeito. Parou ao lado de Lina e, após alguns segundos de observa??o silenciosa, usou a ponta do grande martelo que carregava para empurrar o corpo da mulher de lado.

  O som foi amargo. Um corpo pesado demais para estar vivo.

  — Respira? — perguntou, a voz grave, sem curiosidade. Era uma pergunta prática.

  Lina se abaixou ainda mais, ignorando o medo que apertava seu est?mago. Levou o rosto até quase tocar os lábios arroxeados da desconhecida. Soltou uma lufada curta de ar quente e ficou imóvel, contando o tempo com o cora??o.

  Um segundo. Dois.

  Ela quase desistiu quando sentiu.

  — Sim, mestre! — exclamou, erguendo o rosto de repente. — é bem fraquinho… mas tá viva.

  O homem fechou os olhos por um instante. Respirou fundo, como se estivesse escolhendo n?o apenas uma a??o, mas um caminho inteiro. Quando voltou a olhar, a montanha continuava ali, indiferente.

  — Tire ela daí.

  Lina piscou, assustada.

  — Tem certeza, mestre? — perguntou, a voz mais baixa. — E se ela matar a gente enquanto dormimos? — apontou para o corpo com o queixo, desconfiada. — A gente devia… sei lá… esperar ela congelar mais um pouco.

  O homem virou o rosto lentamente.

  — Para de bobeira, Lina.

  Ela fez uma careta, resmungando algo incompreensível, e mostrou os dentes num rosnado fingido. A paranoia vinha fácil naquele lugar. Tudo ali queria matar. Pessoas incluídas.

  Mesmo assim, obedeceu.

  Agarrou a mulher pelos pés com esfor?o, as botas pesadas escorregando na neve, e come?ou a puxá-la em dire??o à cabana n?o muito longe dali. O corpo deixava um rastro irregular no ch?o branco, uma linha rosada que logo seria apagada pelo vento.

  A cabana surgia baixa, quase engolida pela encosta, feita de madeira antiga e pedra empilhada com teimosia. N?o era bonita. N?o era segura. Mas tinha o luxo de existir.

  Alguém que n?o a conhecesse imaginaria que, lá dentro, haveria apenas um calor fraco — ainda mais pela fuma?a rala que escapava da chaminé. O contrário era verdade. Lina arrastou o corpo semi congelado até o interior e o largou ao lado de uma fornalha enorme, onde o fogo crepitava em chamas altas e constantes, quase agressivas.

  Correu para pegar um cantil e um pano. As m?os tremiam, n?o só pelo frio. Ao limpar o rosto da desconhecida, come?ou a perceber melhor os detalhes: o sangue seco no canto da boca, a pele pálida demais para alguém que ainda respirava, o corte profundo no peito, mal fechado, improvisado. Sob os dedos, algo quente, um relevo que n?o deveria estar ali.

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  — Mestre… — murmurou. — Ela n?o é normal.

  — Eu sei.

  — N?o… — Lina engoliu seco. — Quero dizer… muito n?o normal.

  O homem n?o respondeu. Ajoelhou-se com dificuldade, observando o rosto imóvel, a respira??o mínima. Tocou dois dedos no pulso do pesco?o e esperou.

  Ainda ali.

  Lina sentiu um arrepio subir pelas costas.

  — Acho que… conhe?o ela.

  O silêncio que se seguiu foi pesado.

  — Conhece? — perguntou o homem, sem tirar os olhos do pulso.

  — é… sei lá. — Lina levou a m?o ao peito de repente. Apertou forte, como se algo tivesse se mexido lá dentro. — Só sinto… algo.

  O vento bateu nas paredes de madeira como dedos impacientes, fazendo a estrutura gemer. O fogo estalou, lan?ando sombras longas e tortas pelo interior da cabana. O homem finalmente ergueu o olhar para a aprendiz, os lábios franzidos, avaliando.

  — Mestre… — Lina sussurrou. — Se ela acordar…

  Ele se levantou com um grunhido leve e alimentou a fornalha com mais um peda?o de lenha. As chamas cresceram, iluminando o rosto imóvel da mulher caída.

  — Se ela acordar — respondeu, sem pressa —, a gente descobre.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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