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Capítulo 223 - Cala a Boca

  “Criatura Lumbricidae detectada. Abd?men vulnerável. Intensidade da for?a necessária: três vezes a média muscular registrada. Risco de dispers?o ácida: moderado. Sugest?o de ataque: perfura??o diagonal de baixo para cima.”

  A voz do sistema ecoou como sempre: educada, precisa, irritantemente animada.

  — Cala a boca. Já disse que n?o vou lutar contra uma coisa dessas.

  “Cala a boca”.

  A frase já havia se tornado um mantra para Jasmim, mas o sistema tinha a mesma considera??o por suas opini?es que um general teria por uma folha seca no campo de batalha.

  Estava sentada em uma pedra — dessas largas e geladas que as cavernas adoram cultivar — afiando um osso curvo que, em qualquer outro contexto, seria só um resto de jantar. Agora? Era sua arma. Sua nova arma, porque a anterior tinha virado pó depois de enfiá-la em algo que "n?o deveria ser enfiado", segundo a voz inútil dos óculos. A arma improvisada rangia a cada raspada, preenchendo o ar com uma tens?o que n?o vinha dela, e sim da terra abaixo, que vibrava suavemente a cada pulso da criatura que se movia sob seus pés.

  A escurid?o era abissal, mas a jovem observava, sem pressa, enquanto o vulto colossal emergia de um dos buracos que pontilhavam o ch?o, só para desaparecer no seguinte com um baque surdo. N?o dava para ver detalhes, mas sua imagina??o, sempre solícita, preencheu as lacunas: algo entre uma minhoca gigante e um pesadelo geológico, com anéis pulsantes e uma boca que provavelmente n?o era só para comer terra.

  Felizmente, aquilo n?o era exatamente uma amea?a, o que era bom, porque ela estava cansada demais para lidar com algo que exigisse qualquer esfor?o. Os únicos inconvenientes eram os outros insetos — pequenos, numerosos e curiosos como crian?as em um museu de ciência. Eles zumbiam em volta do monstro, mas às vezes mergulhando em sua dire??o antes de desistir, como se estivessem apenas checando se ela já estava podre o suficiente para virar comida.

  “Segmentos dorsais frágeis. Escudo posterior rachado. Provável les?o antiga. Recomenda-se ataque em rota??o vertical. Estimativa de suces…”

  A voz do sistema interrompeu a própria frase com um pequeno estalo.

  “Movimento brusco. Sete graus à esquerda.”

  Jasmim suspirou. Ainda n?o tinha se acostumado à enxurrada constante de dados, mas precisava admitir: era útil. Invasivo, insuportável, às vezes humilhante — mas útil.

  Levantou-se com um salto, ignorando a dor surda no quadril — consequência de dormir em superfícies que nem sequer eram dignas de serem chamadas de "ch?o". O osso em sua m?o estava afiado o suficiente. Pelo menos isso tinha dado certo.

  N?o precisou olhar. Abaixou-se no último instante, girando no eixo, e a lan?a de osso cortou o ar em um arco ascendente.

  O resultado foi uma sinfonia de fracassos naturais: um clanc de pedra contra pedra, o estalo seco de uma carapa?a cedendo e, por fim, um guincho agudo que soou menos como "dor" e mais como "reclama??o de um funcionário sub pago" — o que era bem pior.

  “Eficiência: 74%. Emo??o detectada: instabilidade. Sincroniza??o parcial: 58%.”

  — Cala a boca. — A ca?adora esfregou o pulso, onde uma pontada latejante insistia em lembrá-la de que matar coisas com ossos n?o era exatamente ergon?mico. — A culpa foi sua por avisar tarde. Me assustei.

  Ajoelhou-se com um estalo de juntas, enfiando os dedos na pele rachada da criatura caída. Textura ruim, cheia de espinhos microscópicos, úmida num jeito que sugeria infec??o ou má vontade genética.

  — Aranhas, de novo… — murmurou, irritada.

  Odiava aquelas desgra?adas. Sempre que acertava de primeira, o bra?o doía por três horas. E quando errava, bom... na melhor das hipóteses, ganhava uma cicatriz nova. As pernas delas eram compridas, desconfortavelmente ágeis. As costas, cobertas de cristais que exalavam um cheiro digno de uma fossa esquecida por Deus. A mana? Fraca. Quase nula. E o sabor... Ela chegou a salivar de nojo só de lembrar. Já tinha tentado comer uma. Uma vez. Nunca mais.

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  Chutou a carca?a para longe. O corpo bateu contra uma rocha com um som úmido e molhado, como um elogio mal recebido. Se fosse mais espiritualizada, talvez dissesse uma prece. Mas o máximo que fez foi murmurar algo entre um “puta merda” e um “obrigada pela contribui??o, imbecil”.

  Voltou a se sentar, olhando em silêncio para o buraco escuro à frente. A criatura gigante já devia ter sumido no subterraneo. As vozes nos óculos cessaram, finalmente. Mas ela sabia que o silêncio n?o duraria. Nunca durava.

  Aproveitou o momento para respirar — um erro, considerando o cheiro ainda presente das glandulas rompidas da aranha. A mana que absorvera era fraca, quase ofensiva de t?o inútil, mas mesmo assim seu abd?men ardia como se tivesse ingerido metal derretido. Desde que acordara, aquela sensa??o ao absorver a energia dos seres mortos come?ou a sempre vir em ondas, como uma febre de dentro pra fora. No come?o, ela vomitava. Agora, apenas controlava a ansia com a elegancia de quem sabe que reclamar n?o adianta.

  Era como se o corpo inteiro se abrisse para aceitar a nova for?a. A cada respira??o mais funda, sentia a energia se acomodar nos músculos, rápida, eficiente. Quase agradável. Até o est?mago resolver protestar e lembrá-la de que n?o era realmente uma máquina.

  — Eu só queria que os gatos voltassem… faz tanto tempo que n?o como carne de verdade.

  O óculos respondeu ao comentário apenas com um bip curto. Ou ela imaginou que respondeu. Já tinha aceitado que parte dos sons eram reais e parte vinham do lugar obscuro entre alucina??o e adapta??o neural. A linha que separava o útil do perturbador era cada vez mais borrada.

  Tocou a lateral do dispositivo com certa irrita??o, como quem bate num rádio velho. O mapa se abriu diante de seus olhos — proje??o perfeita, linhas definidas, tudo mais bonito do que qualquer coisa real ao seu redor. Lá estava a marca. O ponto.

  “COLE??O”, dizia a legenda.

  Sempre a mesma merda. Nenhum detalhe, nenhum contexto, só aquela palavra pairando como um convite enigmático — ou uma amea?a mal escrita. Perguntara ao sistema sobre aquilo inúmeras vezes, e o resultado era sempre o mesmo:

  “Acesso restrito. Requer compatibilidade total.”

  Uma resposta elegante para dizer "isso n?o te diz respeito". Tentou expandir, tentou for?ar, tentou insultar a IA interna. Tudo inútil.

  Mas, bem… pelo menos era um objetivo. Um norte. Um pequeno feixe de sentido em meio à escurid?o cr?nica. Se n?o fosse por aquele marcador insistente, talvez já tivesse se deixado apodrecer ali mesmo, junto dos corpos sem nome e das memórias que n?o queria revisitar.

  “Você está se moldando bem.”

  A outra voz surgiu sem aviso, como um dedo gelado escorregando pela sua coluna. Jasmim cuspiu no ch?o — rea??o mais instintiva do que planejada. Aquela voz, diferente da robótica e polida do sistema, era como um sussurro interno, mas com entona??o própria. N?o soava como um aviso. Era uma presen?a.

  Era arrogante, invasiva e dissimulada. Dava coceira por dentro. Dava vontade de arrancar os próprios ouvidos, mesmo sabendo que n?o resolveria nada. Ela já havia tentado ignorá-la. Já havia tentado respondê-la com palavr?es. Nada fazia diferen?a. A maldita voltava sempre.

  Grunhindo, levantou-se. O descanso havia acabado, n?o por decis?o dela, mas por consenso da realidade ao seu redor.

  No fundo do buraco mais adiante, a terra tremeu.

  A sombra serpentina do monstro voltou a saltar, movendo-se com o mesmo ritmo desconcertante de antes.

  “Criatura Lumbricidae detectada. Escamas irregulares. Rachadura dorsal na altura do nono segmento. Abd?men vulnerável. Recomenda??o de ataque: rota??o em espiral.”

  — Cala. A. Boca! — bateu a m?o na testa, como se pudesse desligar a voz com um tapa. — Eu já disse que n?o vou atacar essa coisa. Deixa ela viver, cacete.

  A minhoca, alheia ao seu protesto, continuou seu trajeto saltitante entre os buracos. Jasmim olhou para o osso ensanguentado na sua m?o, depois para o mapa flutuante, e depois para o vazio à sua frente. Também seguiu seu caminho.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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