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Capítulo 224 - Medicina Alternativa

  — Tem certeza que podemos ficar aqui?

  O quarto n?o era exatamente o que se chamaria de aconchegante, mas tinha duas coisas raras na vida de Lucia: espa?o e um teto que n?o parecia prestes a desabar. A cama era grande demais — quase um território próprio, algo que faria um nobre torcer o nariz, mas que, para um trio de caipiras sem um tost?o no bolso, era o equivalente a uma suíte real. O colch?o, desgastado e com histórias que ninguém queria saber, fora arrastado do galp?o como um cadáver abandonado, mas ainda era melhor que dormir no ch?o duro de uma viela qualquer.

  Pela janela lateral, ao lado de algumas cadeiras amontoadas e um canteiro de ervas esquecido, dava para ver Garm estirado na grama. O focinho se contraía ocasionalmente, incomodado com o cheiro persistente de sangue velho misturado ao verde. Mas ele n?o se movia. Já havia decidido que pensar era trabalho humano, ent?o queria poupar energia.

  O peda?o de carne entre as patas dele já n?o prometia grandes alegrias, mas ainda era melhor do que sair por aí tentando ca?ar em uma floresta supostamente abarrotada de gente que n?o conseguiria enfrentar sozinho nem se quisesse.

  — é claro que sim. — Beatriz gesticulava vagarosamente enquanto falava. — A gente fica fora a semana inteira, n?o v?o atrapalhar. André, coloca a menina com cuidado, por favor.

  O grande homem limitou-se a um aceno silencioso antes de depositar Eva no canto da cama, próximo à parede.

  — Além disso, você é uma compatriota! Quem fugiu do inferno tem que se ajudar, né?

  — Certo… — Lucia murmurou em um tom que n?o dizia nem sim, nem n?o, e se sentou devagar na beirada da cama, os dedos afundando levemente no colch?o velho. — Obrigada.

  O sorriso de Beatriz n?o se mexeu, mas algo nos olhos dela mudou — algo que fez Lucia desviar o olhar. Gratid?o era um peso estranho, especialmente quando vinha de gente que n?o devia nada a você.

  O clima havia ficado estranho quando a taverneira arregalou os olhos de surpresa em meio a sua manifesta??o de chamas. Felizmente, uma troca rápida de palavras esclareceu as coisas, e Beatriz n?o p?de esconder a excita??o de saber que Lucia vivia em uma regi?o próxima naquele lugar escuro, na qual também passou a maior parte do seu tempo.

  A garota n?o fora uma escrava como a taverneira disse ter sido, mas isso n?o foi o suficiente para impedir a sensa??o de irmandade. Sem demora, o grupo deixou de ser um amontoado de intrusos e passou a ser quase família.

  Tentando pensar nos próximos planos com calma mesmo em meio a série de acontecimentos inesperados, retirou uma mecha branca do rosto da companheira adormecida e encostou o dorso da m?o em sua testa. A pele estava quente. Mais quente que antes.

  Ela olhou para Sérgio, os dedos ainda pairando no ar.

  — Ela voltou a esquentar.

  O médico n?o precisou dizer nada. Ele apenas se agachou com o mesmo cansa?o de sempre, puxou um punhado de ervas de uma pequena bolsa no cinto e, sem qualquer cerim?nia ou filtro sanitário, tacou metade na própria boca. A outra metade ele despejou num pote de barro mal vedado, onde uma pasta de cheiro acre já esperava pacientemente o próximo ingrediente.

  A mistura chiou levemente quando ele mexeu, liberando um aroma t?o potente que fez Lúcia recuar o rosto por reflexo. Aquilo tinha personalidade. E n?o era boa.

  Sérgio se aproximou de Eva com um cuidado que n?o condizia com sua aparência desalinhada. Tocou de leve o ombro de Lúcia, pedindo licen?a com um gesto quase gentil — o que, vindo dele, era o equivalente a um pedido formal por escrito. Depois soltou um suspiro gélido, como se estivesse tentando esvaziar a própria ansiedade, e come?ou a passar a pasta na testa da menina desacordada. O movimento era cuidadoso, mas mecanico, como alguém que já sabia que aquilo n?o ia adiantar, mas preferia fazer algo a ficar parado.

  — Sabem se tem um hospital por aqui? — perguntou, sem tirar os olhos da pasta enquanto a selava de volta no pote. — Ou pelo menos uma loja de ervas que n?o cobre o pre?o de um rim?

  A pergunta parecia jogada no ar, mas seus olhos logo se voltaram, primeiro para André, depois para Beatriz. Levou menos de um segundo para decidir com quem realmente falar. André tinha o carisma de uma pedra bruta e a express?o de quem raramente usava palavras por esporte. Beatriz, por outro lado, parecia feita para o palco — e talvez tivesse vindo de um.

  — Você só vai encontrar coisa assim mais pro centro — respondeu a mulher, cruzando os bra?os com um estalar de ombro e um tédio fingido. — Mas a parte do "bom pre?o" já te aviso que é lenda urbana. O que essa menina tem?

  Sérgio esfregou a nuca, como se tentasse amassar a frustra??o para caber dentro do cranio.

  — Parece que passou por uma tentativa de corrup??o for?ada. Mas das duas uma, ou n?o era compatível com o gene que tentaram implantar... ou já tinha uma constitui??o mais forte do que o que tentaram fundir nela.

  A explica??o saiu em tom baixo, quase um sussurro cansado, como se o próprio assunto fosse um peso que ele já tinha carregado por tempo demais. Esfregou a testa com o dorso da m?o suja de pasta e continuou.

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  — Nunca vi nada assim, ent?o n?o vou bancar o especialista. O corpo se recuperou, mas algo no sangue ainda tá brigando por controle. Por isso ela tá nesse estado vegetativo.

  Beatriz franziu o cenho.

  — No sangue?

  — Isso. Mas é mais fácil mostrar do que explicar — murmurou ele, já sacando uma pequena lamina do bolso interno do casaco puído.

  Sem pedir permiss?o — ou talvez pedindo em silêncio, com o olhar —, ergueu a m?o da garota desacordada e fez um corte longo na palma. N?o foi um gesto cruel, tampouco apressado. Parecia... técnico. Seus lábios se moveram num “me desculpe” quase imperceptível, mas seus olhos estavam fixos no que vinha a seguir.

  O sangue escorreu com fluidez. Vermelho-escuro, grosso, mas com algo mais — um brilho sutil, uma presen?a azulada que se misturava ao líquido como tinta de outro mundo. Aquilo n?o era natural.

  E ent?o come?aram a vibrar, como se fossem seres vivos reagindo à exposi??o. Lúcia nem piscou. Já tinha visto aquilo antes, Sérgio tampouco. N?o era um tremor dramático, mas o suficiente para fazer qualquer um sentir um frio na espinha. Os coágulos se esticaram, tecendo uma rede que puxou o sangue de volta para a ferida. Em menos de um piscar, a pele se fechou, deixando para trás só uma fina marca avermelhada.

  O médico deu um passo para trás e respirou fundo. Já ia come?ar a traduzir o fen?meno para uma linguagem mais digerível, mas Beatriz n?o deu chance.

  — Isso vai além de interessante! Ela pulou da cadeira, agarrando a m?o de Eva como crian?a com brinquedo novo. — Mas se o problema é só esse, enfiar remédios goela abaixo n?o vai resolver porra nenhuma.

  Sérgio franziu as sobrancelhas, n?o entendendo o ponto que a taverneira queria chegar. Felizmente, n?o precisou questionar, pois as a??es da mulher falaram por si só.

  Beatriz passou o dedo sobre a pele recém-curada da palma de Eva e, usando a própria unha — nada de instrumentos místicos ou artefatos elegantes — reabriu o corte com um gesto seco. Lúcia deu um passo à frente, instintivamente pronta para agarrar o pulso da mulher se necessário. Mas parou. Havia algo naquele casal que cheirava a perigo, mas também a... oportunidade. Se quisessem fazer mal, teriam feito antes. Ou pelo menos é o que ela tentou convencer a si mesma.

  — Para de me olhar estranho. Você podia ter feito isso, garota. — disse a taverneira, casualmente, antes de levar o dedo sujo de sangue à língua. O gosto pareceu agradá-la mais do que deveria.

  — Eu? — Lúcia piscou, confusa.

  — Claro! — Beatriz girou os dedos sobre a ferida aberta, misturando sangue e intui??o como uma artista pintando a óleo. — Mas talvez você seja nova demais pra sacar. Mana n?o serve só pra acender cigarro ou cortar cabe?a, sabia?

  Sem mais explica??es, esperou. A rea??o habitual n?o tardou: os coágulos azulados come?aram a vibrar, densos, protuberantes, como se quisessem escapar dali e devorar o quarto inteiro.

  Foi nesse exato instante que ela pressionou a palma com for?a.

  Eva arqueou o corpo num movimento brusco, mas n?o convulsionou. Pelo contrário. Imobilizou-se de forma t?o absoluta que, por um instante, deixou de parecer viva. Seus músculos estavam tensos, mas sem rea??o. O tipo de tens?o que precede grandes decis?es — ou catástrofes silenciosas. O sangue ao redor dos coágulos azuis também endureceu, cristalizando-se em padr?es que lembravam teias de aranha congeladas.

  — Teimosos... — murmurou, sem parar o movimento dos dedos. Eles deslizavam pela pele da garota, seguindo um mapa invisível, contornando articula??es, saltando nervuras, até pousar com suavidade no centro do peito de Eva. — é bom que ela esteja inconsciente… — avisou, quase com pena. E ent?o, sem hesitar, afundou os dois dedos no esterno da menina.

  O som n?o foi o esperado. N?o houve carne sendo rasgada ou sangue espirrando em jatos histéricos. O que se ouviu foi um estalo seco. Algo entre vidro rachando e um galho quebrando. E, de dentro, ela retirou uma esfera do mesmo tom azulado dos coágulos.

  Pequena. Brilhante. Estranha. Viva.

  O corpo de Eva, liberto do toque, tombou na cama como uma boneca solta.

  — Isso aqui é o problema — sussurrou, girando a esfera entre os dedos como quem examina um artefato sagrado e maldito ao mesmo tempo. — é interessante. Mas n?o é meu. N?o tenho o direito de tomar de você, crian?a.

  Suspirou, talvez decepcionada com a própria ética, e devolveu o objeto ao corpo da garota. N?o houve cerim?nia. Apenas o gesto direto, pragmático. Os cristais de sangue ao redor da esfera, no entanto, permaneceram rígidos. Como uma armadura improvisada. O restante do sangue — obediente como sempre — seguiu os dedos da taverneira, preenchendo o buraco deixado pela incurs?o e fechando a pele com uma grande crosta de ferida.

  — Você aí, médico. Fecha isso. — grunhiu, já se afastando como quem terminava de lavar a lou?a do jantar.

  Sérgio ainda estava parado. Talvez mais pálido do que o normal.

  — O que... acabou de fazer?

  — Ué, ajudei a menina. N?o era isso que queriam?

  O silêncio que se instalou depois foi espesso.

  E ent?o... movimento.

  As pálpebras de Eva estremeceram. Uma vez. Depois mais uma. Por fim, se abriram de vez — brancas como gelo, quase sem pupilas, mas com uma express?o clara de inc?modo. As sobrancelhas franzidas, o ar arfante, a tens?o nos ombros. N?o era mais um corpo vazio. Havia alguém ali dentro. Confuso, talvez. Mas vivo.

  Seu olhar vagou de rosto em rosto, confuso, perdido. Até que, como se desistisse de entender, deixou a cabe?a afundar no travesseiro.

  — Bom, bom. — Beatriz esfregou as m?os ensanguentadas nas cal?as, como um a?ougueiro no fim do expediente. — Quem quer bebida?

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  Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!

  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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