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Capítulo 229 - Frio Convés

  — Chegamos tarde…

  — E teria adiantado algo se tivéssemos chegado mais cedo?

  Alex bufou. O companheiro estava certo, estar ou n?o ali era uma decis?o movida pela esperan?a teimosa, n?o pela lógica.

  à distancia, duas silhuetas conhecidas: uma bebendo sem pressa; a outra com o alaúde de Nyx nas costas e a arma negra girando na m?o como quem espanta moscas.

  — Pelo menos a gente encontrou elas… — continuou Luiz, ajeitando o corpo para tentar parecer confortável durante o voo.

  A sela das araras n?o ajudava o humor. Catarina vendia aquilo como “o auge do transporte aéreo pessoal”, mas isso era generoso demais para a oferta real. O couro era grosso, áspero onde n?o precisava e liso demais onde a perna tinha de agarrar; as ferragens beliscavam a coxa a cada batida de asa. O cheiro era uma combina??o insistente de fruta passada e um fundinho de estábulo marinho.

  As aves em si — araras de carga cor de ambar, bicos riscados de cicatrizes e olhos inteligentíssimos — exalavam uma dignidade ofendida. Tinham dois longos chifres, quatro pernas poderosas e penas polidas com óleo que chiavam ao vento como velas costuradas à pressa.

  Alex precisava constantemente vigiar o próprio calor. Qualquer oscila??o de humor e o couro estalava, a ave soltava um assovio curto e virava o olho como quem avisa: “Outra dessas e te jogo lá embaixo”. O arnês era um colar de placas e argolas gravadas, batendo no peito da criatura como sinos discretos; a cauda comprida funcionava como tim?o, corrigindo as rajadas de vento com um movimento irritantemente elegante. As garras, presas em manilhas tran?adas, cravavam e soltavam o ar como uma máquina de costura.

  Luiz vinha em uma menor, mais nervosa e com a pele um pouco azulada. Tinha as mesmas joias utilitárias no pesco?o, só que em liga escurecida; quando o vento apertava, ela arqueava as asas num arco perfeito e mergulhava um palmo, quase o fazendo cair. Eram bonitas de ver; péssima de montar.

  O pior: eram caras. Quando Catarina as ofereceu pela primeira vez, fez parecer que daria para cruzar meio Caribe com todos os seus piratas. A realidade? Alex só tinha ouro suficiente para uma, e a segunda foi conseguida na base do choro e de uma suposta amizade duradoura.

  Assim, sozinhos, os dois homens voaram a toda velocidade. Felizmente, meio dia bastou. Barbados tinha poucos cais úteis, ent?o achar o lugar foi fácil. O problema foi o que encontraram quando chegaram.

  Mesmo do alto, a pilha de corpos no convés do Collectio era incontornável. Pelo menos cinquenta. Crian?as e velhos misturados, o tipo de soma que n?o devia existir. Abaixo, a cena dava um respiro, mas n?o consolava: sobreviventes acorrentados, conduzidos por mascarados. Caixas passavam de m?o em m?o — primeiro ouro em punhados, pérolas enormes, tecidos de ótima qualidade; logo garrafas e mais garrafas de rum; enfim, um pouco de comida. Estranhamente pouco.

  — Mas que merda... — Alex manteve a voz baixa para n?o assustar a arara e a si mesmo.

  Observaram bem o convés antes de decidir realmente parar ali.

  Sem perigos óbvios, eles deram mais uma volta antes de descer. Testaram o vento, o humor das aves, a distancia dos canh?es e o alcance provável de qualquer loucura. As araras n?o gostaram do cheiro, mas eram bem treinadas. Obedeceram com um arrulho contrariado e asas em angulo, reduzindo a altitude em círculos curtos.

  Na proa do Ranger, as duas mulheres franziram a testa ao notar os intrusos. Alex devolveu o gesto num aceno murcho e saltou da sela. O pouso abafado estalou nos joelhos.

  “Saiam daqui!”

  A voz cortou o ar, atingindo a mente de Luiz como uma agulha. Segurou o ombro de Alex por reflexo. A palma ardia, mas n?o prestava aten??o nisso. Seus olhos se encontraram com os de Niala, que acabara de lhe mandar o aviso, e o choque foi imediato.

  “Rápido, ele tá subindo!”

  Nunca a tinha visto assim, t?o agitada, com tanto… medo.

  — Temos que sair — sussurrou para Alex, já come?ando a recuar de volta para a Arara.

  — Do que você tá falando? — Alex tirou a m?o do mentalista de seu ombro com um sacudir brusco do corpo.

  Luiz n?o parou de se mover para responder. Se ajeitou no animal, pronto para sair dali. Viver parecia mais atraente do que discutir. N?o foi rápido o suficiente.

  — Mary, Anne… com quem est?o falando? — A voz veio da cabine, e a porta foi aberta lentamente pela m?o ossuda. — S?o os ingleses?

  Assim que saiu, sua vis?o torta encontrou os dois homens. Arregalou os olhos em espanto.

  — Agora eles podem voar! Marujos, n?o deixem que fujam!

  Niala n?o teve tempo de pará-lo. Ana sequer tentou. A?o voou de todos os lados, cravando-se profundamente na carne das grandes Araras, que soltaram gritos vivos e dolorosos enquanto se debatiam no solo. Luiz caiu em um baque surdo na madeira, mas rolou e se levantou em um pulo. Alex recuou dois passos, apertando os dentes.

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  — Pensam que podem subir em meu navio como se mandassem aqui? — Jack gritou, indo em sua dire??o com passos erráticos. — Eu sou o único que manda aqui. Amarrem-nos!

  Eles foram ao ch?o antes do corpo entender o comando. Joelhos batendo na madeira, ombros puxados por algo que n?o se via. Press?o por todos os lados, como se o ar tivesse criado dedos.

  Ana finalmente se mexeu, balan?ando a cabe?a de forma cansada.

  — Vieram se entregar, Calico. — disse em uma voz suavemente zombeteira. — Manda esses ingleses covardes irem limpar os por?es.

  — Ingleses trabalhando no meu navio? Nunca!

  — Como pode culpar os rapazes por querer entrar na tripula??o do incrível Jack Rackham? — Ela circulava o capit?o sem encostar, aproximando-se dos dois no ch?o. A pistola apareceu na m?o como se sempre estivesse ali. — Mas, se você insistir… eu resolvo agora.

  O cano repousou na testa de Alex que, sem conseguir falar, a olhou de canto de olho.

  Calico Jack pareceu ponderar, cessando seus passos. Logo, seu olhar ficou resoluto.

  — Mate um e jogue o outro do navio. Que avise aos demais que n?o aceito ingleses!

  Ana suspirou e se apoiou com o cotovelo no ombro instável de Jack. N?o gostava de encostar diretamente no homem, seu cora??o sempre parecia que ia explodir quando suas energias reversas se encontravam, por mais que tentasse se acostumar com isso. Ainda assim, o fez.

  As runas da pistola acenderam devagar, anel a anel… olhou discretamente para Niala.

  A alcoólatra pareceu hesitar, mas ajeitou a postura. Bocejou alto o suficiente para que todo o barco ouvisse, esticou o corpo num espregui?ar de ressaca e, sem aviso, arremessou a garrafa.

  O vidro passou a um dedo da cabe?a de Jack e se quebrou no ar no exato momento em que a última runa se acendeu na pistola. As linhas negras reagiram como bichos e, enfurecido, Calico atingiu a ex rainha, a lan?ando em dire??o ao mastro principal como uma bala.

  Ana, no entanto, n?o estava prestando aten??o nisso. O cano da arma havia se movido junto com as linhas.

  O tiro saiu curto, e o fedor veio primeiro que o sangue: podre e fresco, doce e errado. A cabe?a torta do capit?o explodiu de uma só vez, e o aperto em Alex e Luiz afrouxou na mesma hora.

  Ana largou a pistola destruída sem cerim?nia e fechou os olhos por um instante. Quebrar a liga??o doía; respirou fundo e deixou a dor passar, uma sensa??o que pareceu uma eternidade, mas durou apenas o tempo de uma respira??o profunda.

  Tirou com o polegar o filete de sangue escuro que lhe riscava a bochecha, pegou o morto pelo tornozelo e o arrastou até Niala, jogando-a no ombro com certa naturalidade. Alex e Luiz olhavam, sem conseguir acompanhar o roteiro.

  — Cuz?es. Estragaram meu momento de divers?o. — Ela nem fingiu do?ura. Virou-se para a borda. — Miguel! Termina de guardar os corpos e monta acampamento!

  A voz saiu firme — mais firme do que vinha sendo em meses. Ent?o encarou os dois, já livres, mas sensatos o bastante para n?o testar a sorte.

  — Levantem. Me sigam.

  At?nitos, caminharam quietos para dentro dos corredores frios do, como sempre deveria ter sido, Collectio.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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