Música. Doce, afinada… inconveniente.
Havia algo de errado ali, Jasmim jurava já estar boa em prever essas coisas. Agachada entre as copas deformadas de uma árvore caída, sentiu a melodia como se fosse uma lamina correndo pela espinha, gentil demais para machucar, mas afiada o bastante para deixar um recado.
“Recupere a Cole??o.”
A voz seca a liberou do torpor inicial, como se tivesse sido cuspida direto do centro do seu cranio. Parecia ser só mais uma entre tantas, mas aquela veio com urgência. Pressa que beirava o desespero.
— T? vendo — murmurou ela, sem grande entusiasmo.
A vegeta??o ao redor estalava devagar, como se a própria floresta tropical sentisse que n?o devia se meter. Do alto daquela encosta disforme, com cascas retorcidas e folhas cheirando a iodo, ela tinha vista perfeita de toda a costa. O cais de Barbados n?o passava de uma estrutura colada com promessas e ferrugem. As barracas se agrupavam como ratos nos trilhos do trem. E, no meio de tudo aquilo, o navio.
O navio.
Finalmente lá estava ela, à sua frente, a marca no mapa. Aquele ponto irritante, piscando havia dias com a palavra “Cole??o” escrita de forma absurdamente categórica. E agora ela entendia por quê.
— O navio é a cole??o... — murmurou, n?o querendo acreditar. — Tá de brincadeira… como vou “recuperar” um navio inteiro?
N?o foi fácil chegar ali. Também n?o foi exatamente difícil, mas foi… cansativo. Sim, cansa?o foi o que teve de sobra. Sempre que o ponto se movia no mapa, Jasmim acelerava o passo. Um mês para sair do país sem um meio de transporte era raspar no limite, mas com pernas fortes, um ou outro cavalo roubado e um bom saco de ouro dado aos primeiros navegantes que encontrara, conseguiu chegar ali.
“Avance.”
As veias da testa latejaram. Jasmim cambaleou um pouco, levando a m?o à lateral dos óculos como se pudesse arrancar a dor dali, beliscar a origem do inc?modo. Mas era inútil, sabia que n?o vinha do dispositivo. A música aumentou.
“ó, guerreiros, sintam o ar, t?o doce e amargo…”
— Eu… eu conhe?o isso… — a guerreira se deitou na terra, com o bra?o cobrindo os olhos.
N?o era a música que conhecia, mas a voz tinha certeza que sim. Ou talvez só achasse que conhecia, sua cabe?a n?o estava no estado ideal para se lembrar de verdade dos detalhes da sua vida.
Com cuidado, espiou por entre os galhos logo após a segunda explos?o, pouco antes de algumas casas se desmancharem com uma violência limpa.
Sim, lá estava ela. Sim, ela a conhecia.
Ana.
Surgiu na proa, dedilhando um alaúde tal como um a?ougueiro brinca com uma faca antes de decepar um boi. Jasmim apertou os punhos. A luz refletida nos óculos tra?ava linhas no rosto, e o calor de sua própria respira??o fazia o interior emba?ar.
— Por que ela tá ali? — sussurrou.
A resposta n?o veio. Ou melhor, veio sob outra forma: um choque no cérebro. Como se o próprio nervo óptico tivesse sido esmagado por dois enormes dedos.
De repente ela viu Ana. Mas n?o no navio.
Uma caverna talvez? Ou em algo semelhante a uma rústica. Um espa?o preenchido por dor. Ana, parada. Depois, lutando. Uma luta que Jasmim sabia que n?o travou, mas cujos movimentos, de alguma forma, conhecia com precis?o absurda.
— Isso n?o é meu…
Veio outra imagem. Ent?o uma voz fria, distante. Um sussurro sobre inconsistências. Sobre falhas. E ent?o o impacto: jovens sendo esmagados por bra?os metálicos em uma luta injustamente grotesca.
Depois, nada.
Despertou com o rosto no ch?o. A terra tinha cheiro de ferrugem, e sentia a umidade grudar nas dobras do pesco?o. O visor tremia. As bordas do mapa se dissolviam em artefatos visuais. O ponto da Cole??o pulsava. Mas agora n?o piscava. Sangrava.
Jasmim se ergueu de joelhos completamente cobertos de lama. Os óculos ainda em seu rosto, firmes. Mas seus olhos ardiam. Sentiu o calor escorrer pela lateral do nariz. Estendeu os dedos e tocou. Vermelho.
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— Mas que merda... — sussurrou, sentindo o gosto metálico escorrer até a língua.
O sangue atrás das lentes criava pequenos halos vermelhos sobre o visor. Era como enxergar o mundo através de um vitral saturado pela própria fragilidade.
“Avance. Recupere a Cole??o.”
— Vai tomar no cu!
A voz n?o respondeu, mas o mapa acalmou com o grito, o vermelho brilhou menos agressivo.
Jasmim respirou fundo.
Come?ou a descer a encosta, os pés escorregando com elegancia acidental pelas raízes molhadas. Já n?o pensava muito sobre o que faria quando chegasse. Havia aceitado que seus planos eram sempre retorcidos por alguma insanidade localizada, segundo sua teoria baseada em um absoluto nada, na regi?o da nuca.
Lá embaixo, o caos ganhava contorno.
Ana, ainda na proa, n?o se preocupava. Tocava o alaúde com uma tranquilidade irritante. Nenhuma defesa, nenhuma postura amea?adora, só ali, afinando notas no meio de uma cena que parecia prestes a desmoronar.
E ent?o, o povo reagiu.
A estranha corrompida que havia descido — Jasmim n?o sabia quem era, mas via a tens?o nos vários ombros — come?ou a ser cercada. Quando o primeiro ataque apareceu, Ana finalmente saltou.
N?o teve pressa. Colocou o alaúde de lado, desenrolou um tipo de… bem, cruz? N?o seria um nome adequado, a empunhadura com toda certeza era de uma espada, mas o resto parecia algo que foi largado em meio a forja. De qualquer forma, tinha um tipo de presen?a que doía de olhar diretamente.
A arma n?o parecia cortar, estava basicamente “editando pessoas”. Onde passava, as coisas deixavam de ser. Corpos dobravam, membros caíam, est?magos eram perfurados. Vozes morriam antes da última sílaba, e o ch?o ganhava novas texturas organicas.
Jasmim parou de correr. Franziu o cenho, e com cuidado, se curvou atrás de um tronco, assistindo com mais aten??o. A voz, previsivelmente, reapareceu.
“Avance!”
Ela fechou os olhos com for?a, e ent?o abriu mais uma vez. Ouvia as explos?es, os gritos. O barulho de tripas caindo tinha um som específico e, diga-se de passagem, bem reconhecível.
— Idiota… — murmurou, encarando o visor. — Você ainda n?o percebeu? Vou morrer à toa se for agora!
N?o cometeria o mesmo erro duas vezes. Estava mais forte, sabia disso, mas se perdesse novamente em um só ataque daquela mulher, n?o se perdoaria.
Houve um silêncio. Um verdadeiro, sincero, raro silêncio — pelo menos na cabe?a dela, lá fora ainda estava um caos. Ent?o um pequeno zumbido.
N?o era o zumbido comum — aquele ruído de fundo dos óculos em funcionamento — mas sim um outro zumbido. Mais sutil. De alguma forma, Jasmim podia jurar que esse era mais pessoal que os anteriores.
“Ferramenta atual insuficiente para a tarefa.
Iniciar protocolo alternativo…
Recrutamento ativado.”
O visor reagiu antes do cérebro. O ponto vermelho que a atormentou durante meses, sumiu.
N?o apagou, sumiu, como se nunca tivesse existido.
No lugar, surgiram cinco novas marcas — uma delas vermelha como a antiga, sim, mas também duas azuis e duas amarelas — dispostas t?o distantes que, sem tirar muito o zoom do mapa holográfico, sequer conseguia entender onde estavam.
Jasmim franziu a testa. Por um instante, achou que fosse outra dor de cabe?a chegando, mas isso n?o diminuiu a surpresa quando a próxima frase atingiu sua mente.
“Busque companheiros.”
— Busque… companheiros…
Repetiu devagar, saboreando cada palavra.
Olhou para as duas mulheres lutando n?o muito longe, para os tiros vindo do navio. Lembrou de Ana como rainha. Lembrou do tempo em que comandava guerreiros que n?o se mostraram t?o úteis assim.
“Subordinados n?o. Companheiros.”
Jasmim resmungou algo inaudível com o comentário adicional, e ent?o chacoalhou os ombros.
Um sorriso torto nasceu enquanto dava as costas para a dan?a entre corpos que ocorria no porto, decidida a n?o esperar até o fim.
Com uma nova miss?o, partiu.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

