— Será que nascem de novo se eu cortar?
A pergunta ficou no ar, e Ana n?o esperou resposta. O inc?modo n?o era filosófico, era logístico: a falta de uma mesa decente para alguém com bra?os nas costas.
Resolveu do jeito que resolve quase tudo — com uma gambiarra competente. Empurrou duas mesas, encaixou duas tábuas, abriu um v?o no meio e deitou Niala ali, os quatro bra?os pendendo pelo buraco. Feio, mas funcional. Ao lado, em outra mesa, o corpo de Calico Jack insistia em existir pelo olfato; um cheiro doce e nauseante que obrigou Alex e Luiz a apertarem o nariz.
— Se era t?o fácil assim matar ele, você devia ter feito antes… — Alex falou sem emo??o, já estendendo o bisturi quando Ana levantou o queixo num pedido mudo.
— N?o queria. Digo, n?o ainda. — Ela girou o instrumento entre os dedos, testando o peso. — Eu ia voltar mês que vem, bem a tempo do festival. é que o poder desse cara era perfeito pra dar um pontapé nos meus planos.
— Planos? — Luiz manteve os olhos nos movimentos dela. N?o confiava na sanidade da capit? dentro daquele navio. — Na verdade, fodam-se os planos. Ela tá só desmaiada. Por que você tá abrindo o peito dela?
Ana interrompeu o corte por meio segundo, abriu e fechou as m?os no ar como quem procura uma palavra e encontra outra, menos honesta. Deu de ombros, voltou ao servi?o. Voltou também para a pergunta original.
— Eu já deixei claro: o mundo é meu. — A voz saiu mais alta do que devia, e a for?a na m?o também, fazendo um jato curto de sangue salpicar a tábua. — Tenho que come?ar minha reconquista de algum lugar.
Os dois se entreolharam. N?o era esse o discurso que queriam ouvir, nem o tom. Alex bufou.
— A gente já n?o tinha falado sobre isso? Se ia fazer dessa forma, pra que eu t? há meses esperando aquela porcaria de Leviathan?
— A “porcaria de Leviathan” é o que vai me permitir manter o controle. Pensa, por favor. — Com Niala já com ossos separados, Ana fez um talho firme no peito de Jack, depois mais dois menores, como quem abre uma caixa difícil. Mergulhou as m?os naquela carne escura que já tinha desistido de ser vermelha e puxou o cora??o com uma naturalidade que n?o se ensina em escola.
Luiz, que vinha tentando manter a neutralidade, percebeu a m?o pousada na própria faca. Alex cruzou os bra?os; a temperatura do ambiente come?ou a subir.
— Aquelas mortes… você prometeu n?o fazer mais esse tipo de coisa.
— A ocasi?o cria o ladr?o. — Ana n?o se deu ao trabalho de soar culpada. — E, pra ser justa, geralmente ofere?o um acordo antes.
— Os relatórios dos seus massacres dizem o contrário.
— Ent?o foram escritos por alguém burro. Devia ter uma linha em destaque: “poucas mortes caso se rendam”. Se ninguém aceitou, a culpa n?o é minha.
— Tem uma pilha de inocentes mortos, porra! — O grande guerreiro socou a mesa, fazendo os instrumentos da cirurgia saltarem. O metal, quente, vibrava.
Ana ergueu o polegar, sincera.
— Esteriliza??o dupla n?o é um mau negócio. Já pensou em virar médico?
A mesa voou num empurr?o e Alex saiu da sala com um olhar que poucos gostariam de encarar. Ana acompanhou o vulto até a porta, segurou o impulso de chamá-lo e engoliu junto um comentário que, na melhor das hipóteses, pioraria tudo. Virou de volta para Niala.
— Ei! Ajuda aqui. Segura os bra?os dela.
Luiz levantou num salto e se posicionou atrás da cabe?a da aracnídea, os antebra?os travando por cima dos ombros ossudos.
— Vê se fica firme. N?o temos anestesia e n?o quero alguém acordando e se debatendo com uma faca dentro do peito.
— Você ainda n?o explicou pra que tudo isso…
— Ela é uma mulher forte. — Ana ajustou o angulo do bisturi, medindo a distancia com os olhos mais do que com a régua da mesa.
— Sei disso, mas —
— N?o tem “mas”. — A frase veio seca, porém sem grito. — Vou deixá-la mais forte ainda.
Respirou. N?o um suspiro dramático; apenas ar entrando e saindo para assentar a m?o. E ent?o trabalhou. Rápido demais para conversas, preciso o bastante para parecer ofensa ao improviso da sala. Tecidos se abriram com um som úmido e curto; vasos foram pin?ados e amarrados com a frieza de quem já fez coisa pior em condi??es piores. O metal vibrou na tábua. O cheiro mudou de ran?o para ferro. Em dois movimentos que teriam dado inveja a um mestre cirurgi?o, a troca estava feita.
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Luiz prendeu a respira??o sem perceber. Parte por nojo, parte porque era mais fácil n?o opinar quando o corpo está ocupado em sobreviver.
— Ela n?o vai mais passar pelo que passou. — Ana falou baixo sem perceber. — Cansa?o, falha, fome… chega.
Encostou a ponta do dedo no novo cora??o, sentindo o pulso responder sob a pele, firme e estranho, porém inegável.
— Além disso, isto aqui é perfeito pra esse corpo. — Tamborilou uma última vez no órg?o enegrecido antes de finalmente come?ar a sutura. — Sei que vai aguentar o tranco. Bom, n?o sei, sei, mas acho que vai…
Luiz soltou os ombros de Niala devagar, como quem devolve algo frágil ao lugar de origem. As articula??es dele estalaram num protesto discreto. Balan?ou a cabe?a, puxou uma cadeira e afundou nela. Polegares nas têmporas, cotovelos nos joelhos, respirou pelo nariz até achar um ritmo que n?o competisse com o que batia no peito da aracnídea.
— O Alex n?o vai voltar t?o cedo — murmurou, sem levantar os olhos.
— Ele precisava esfriar a cabe?a. — Ana brincou e mordeu um peda?o do fio encerado para travar o ponto. — Eu também.
— N?o é só calor. — Luiz largou as têmporas, encarou o teto, encarou o ch?o, decidiu pelo meio-termo que era olhar para a mesa. — Ele fica assim quando você atravessa a linha que ele finge que n?o existe. Principalmente a dos “inocentes”. A dos que n?o escolheram estar no seu caminho.
— Eu já disse que ofereci um acordo. — O tom veio sem defesa, só constata??o. A agulha entrou, saiu, puxou a pele num desenho que come?ava a parecer organizado. — E, sinceramente, o Jack ia fazer merda com ou sem minha ajuda.
— Contabilidade de tragédia n?o consola ninguém. — Luiz deu de ombros, cansado. — Ele confiou em você. Confiou que você n?o ia matar sem necessidade. N?o podia ter tomado essa decis?o sozinha.
Ana parou um segundo, só o suficiente para checar a colora??o ao redor do corte. Voltou a trabalhar, mais devagar.
— é isso que uma capit? faz.
— é isso que um ditador faz. — O mentalista soltou um riso curto, sem humor, e passou a palma na cara. — Você quer que eu vá atrás dele? — perguntou, enfim. — N?o prometo convencer. Posso pelo menos impedir que ele exploda.
— N?o se preocupa. Só me traz água limpa e um pano novo.
Luiz levantou, a cadeira reclamou. Na porta do depósito, parou um instante.
— Você sabe que ele só briga porque fica. Quando parar de brigar, é porque foi embora.
— Eu sei.
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Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo voltarei a postar!
Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

