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Capítulo 232 - Parada no caminho

  — Ela prometeu que vai ser a última cidade antes de voltarmos para Mare Euphoria.

  Luiz disse isso ofegando, com a m?o enfiada na lateral do próprio corpo para segurar o sangue no lugar certo. Ainda assim, trazia uma morte sempre que alguém se aproximava o suficiente para sentir o fio da sua adaga. N?o conseguia se concentrar o suficiente para usar suas habilidades de forma eficiente em meio a um campo de batalha, mas, com Alex o protegendo, ainda fez um trabalho decente. Seu treino for?ado a bordo daquele navio havia feito bem.

  — E você ainda acredita nela?

  — Nesse mundo fodido é acreditar nela ou… bom, isso aqui. — Luiz girou o punho, indicando tudo que os cercava.

  Alex soltou ar pelo nariz em uma carranca e um riso for?ado. Lutava sem animo, n?o tinha inten??o de participar de carnificinas, só que o pequeno exército de Punta Cana apareceu no escuro com pressa e convic??o, e os mascarados sozinhos n?o segurariam. Entre ver morrer aqueles que compartilharam sofrimento lutando ao seu lado ou os corrompidos do mar caribenho, escolheu ignorar a própria moral.

  Os dominicanos felizmente n?o eram muitos, mas tinham uma vantagem irritante: for?a bruta. Homens se erguiam de forma imponente, com dentes finos de tubar?o-tigre e uma pele que brilhava onde virara escama. As mulheres vinham com caudas e bra?os talhados por nado de maré. Passavam o dia no fundo — o calor do solo fazia mal — e emergiam do mar com a maré, na madrugada, clamando para uma deusa da Lua que, pelo visto, ignorava suas pobres rezas.

  Foi puro azar que, pensando ser um bom fator surpresa, Collectio tivesse atacado justamente durante a noite.

  — Cinco cavaleiros à esquerda! — rosnou um mascarado, perto demais para ser reconfortante.

  “Cavaleiros” era generoso. Eram guerreiros montados em peixes-le?o vermelhos do tamanho de bois, espinhos em leque, olhos atentos flutuando erraticamente sobre o solo como se tivessem se esquecido de onde realmente deveriam estar. Alex e Luiz se jogaram no ch?o no mesmo segundo, que foi o segundo certo. Os espinhos — e os machados de seus cavaleiros — passaram onde antes havia pesco?os. Um dos homens de Barbados — que trouxeram como tripulantes após muita conversa e um acordo violento — n?o teve a mesma sorte; quando percebeu, já havia sido riscado pelos espinhos.

  N?o morreu na hora, o que foi pior. O corpo inteiro travou numa dan?a feia, come?ou a inchar, quase dobrando de tamanho, e o pouco de ar que sobrava em seus pulm?es foi gasto em grunhidos realmente desconfortantes.

  — Corre, caralho! — Alex puxou o f?lego e disparou. Dois montados já tinham dado meia-volta. Foram vistos. Em duelo direto ele apostaria nos próprios punhos; contra veneno, n?o. Veneno é a mais ingrata das armas.

  — Merda, merda, merda… — Luiz ficou para trás do jeito previsível. Sabia que n?o alcan?aria Alex e, no meio do panico, entendeu aquela li??o velha: para fugir de uma on?a n?o precisa ser muito rápido, só mais rápido que o amigo. Riu sozinho do pensamento, freou a corrida que mal tinha iniciado, cravou os pés na lama e se preparou para o impacto.

  Alex ouviu o arrasto das botas, estalou as m?os nas coxas e parou também, relutante.

  — Registro aqui que, se a gente morrer, a culpa é sua por ter apoiado essa porcaria toda.

  — C’est la vie! — Luiz gritou, e o francês torto foi a distra??o exata para ele desistir de tentar entrar na mente do peixe. N?o aguentaria sem seu cérebro virar uma sopa.

  Quando fechou os olhos, o sangue atingiu seu rosto. Estranhamente, n?o o seu.

  Os cavaleiros ainda avan?avam, mas já n?o existia nada da cintura para cima, como se apagados com raiva. Logo, as metades de baixo também desistiram, desabando na lama logo ao lado de uma bala de canh?o estranhamente fria, sem fuma?a. Ela ficou ali, imóvel, até que voou de volta na dire??o do navio.

  “Você vai ter que me compensar, idiota.”

  A voz de Niala encaixou no cranio de Luiz, mas veio mais fraca do que deveria. Lá em cima, o casco do Collectio rangeu e virou com rapidez que n?o combinava com o tamanho, dando um pequeno vislumbre da ex-rainha no leme. Em meio ao decote de sua folgada camisa de linho, a cicatriz negra cortava do alto do peito até quase o umbigo — uma linha feia e honesta.

  Luiz soltou o ar e devolveu um aceno curto para o alto. Ana n?o tinha mentido: por mais que a aparência cansada denunciasse que deveria repousar em uma cama ao invés de conduzir um navio, Niala estava definitivamente mais forte.

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  N?o era a orquestra fantasma de Jack, com fogo por todos os lados e sua misteriosa tripula??o, afinal, ela conduzia uma única bala de ferro pelo ar — ou duas, se deixasse de lado os mastros por um segundo —, mas ainda era extraordinário.

  A vis?o durou pouco. O corpo de Ana cruzou o campo como um projétil e entrou de frente numa árvore. Sem saber se o som grotesco de estalo foi um osso ou um galho, a capit? se levantou em uma cambalhota e apalpou rapidamente o corpo. Suspirou de alívio, e logo agarrou um par de correntes enroladas em sua espada negra. Deu um pux?o.

  Uma mulher sem pernas — n?o por as ter perdido, mas por tê-las trocado por uma cauda longa, brilhante e musculosa — surgiu voando quase t?o rápido quanto ela própria. O pesco?o apertado por três voltas da corrente, olhos arregalados num misto de raiva e surpresa. Logo atrás, um homem enorme, ombros que mal cabiam no próprio corpo e pele marcada por listras escuras também saltou do mar.

  — Precisa de ajuda?

  Ana se virou com um susto, quase caindo para trás. Relaxou quando viu a dupla ali, com Luiz brincando com a adaga enquanto encarava a cena.

  — N?o. — Negou também com a cabe?a. — E podem tirar essa cara de bunda. Acabamos por aqui.

  O mentalista olhou da mulher sufocando para o tubar?o bípede de mais de dois metros; depois voltou para Ana, tentando acompanhar a matemática.

  — Aca… bamos?

  — Sim, sim. Tipo, temos um acordo. Né? — Puxou a corrente, trazendo a prisioneira mais perto e encarando o corrompido de forma convencida.

  Uma estranha luz brotou das m?os da cativa num lampejo agressivo, e sua mandíbula travou de fúria quando as apontou diretamente para Ana. O clar?o, porém, mal passou de uma faísca, com a manifesta??o morrendo como um vaga-lume nas m?os de uma crian?a. Ana gargalhou, seca, e acertou as costelas dela com a ponta da bota. A espada em cruz subiu até a altura do seu bra?o esquerdo, encaixada com familiaridade desconfortável.

  — Sem essas palha?adas embaixo do meu barco. — Inclinou a cabe?a e voltou os olhos para o tubar?o, agora com a respira??o ruidosa e o arp?o meio abaixado, dividido entre orgulho e senso de sobrevivência. — Temos um acordo. Né?

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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