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Capítulo 249 - Trabalho Honesto

  A campainha tocou baixo.

  N?o era o som ideal para anunciar clientes em uma taverna, mas o lugar já n?o tinha clientes suficientes para justificar exigências acústicas. Com metade das mesas vazias e a outra metade ocupada por poeira, qualquer barulho já cumpria sua fun??o.

  — Vai direto pro banho. Tá fedendo de novo.

  A taverneira ruiva fungou, mas n?o levantou os olhos esbranqui?ados dos copos que secava com um pano gasto. Lúcia ignorou a observa??o e sentou-se na mesa mais próxima do balc?o.

  — Porra, Lúci, eu t? falando sério! é um inferno limpar esse cheiro.

  — Ent?o é só n?o limpar.

  Lúcia deu de ombros e se acomodou melhor na cadeira. O corpo parecia pesar mais do que deveria depois de um dia inteiro nas ruas. Os olhos amea?avam fechar enquanto apoiava a cabe?a no bra?o, mas ela se obrigou a manter algum grau mínimo de consciência.

  Antes que o sono vencesse a discuss?o, lan?ou uma pequena bolsa sobre o balc?o.

  O tilintar de moedas produziu um efeito quase milagroso.

  A mulher hesitou antes de recolhê-las. Contou rápido com os dedos.

  — Deu tudo certo hoje?

  Lúcia abriu um meio sorriso.

  — Até que sim. Consegui matar cinco, ent?o me deram um extra.

  — Ent?o n?o vamos ter que pedir pro Garm ca?ar. Isso é bom.

  — Nem ia ter como — murmurou Lúcia, esfregando o rosto. — Peguei um bico de entregas pra amanh? à noite. Ele vai me ajudar.

  As m?os da ruiva pararam imediatamente.

  O pano ficou imóvel no meio do copo.

  — Lúcia…

  — N?o é nada perigoso, juro!

  — Lúcia!

  — é urgente. Prometeram pagar o triplo do que pagavam antes! — Revirando os olhos, deixou a testa cair na mesa. — A vida tá cara demais, Eva. N?o quero viver assim pra sempre.

  Eva respirou fundo, devagar. N?o queria gritar.

  — Se te pegarem de novo, n?o vai acabar só com uma advertência. Cê sabe disso. N?o dá pra procurar um emprego normal?

  Lúcia mordeu o lábio inferior com for?a suficiente para um filete de sangue surgir.

  — Você sabe que n?o… Tenho sorte até quando me deixam passar pela porta.

  Eva voltou ao trabalho. Os copos voltaram a girar entre seus dedos.

  Mas, antes que pudesse continuar a repreens?o, tossiu.

  Foi uma tosse contida. Curta. Mesmo assim, pequenas gotas de sangue respingaram sobre a madeira do balc?o.

  Lúcia levantou num pulo.

  — Deixa que eu limpo.

  A preocupa??o apareceu no rosto dela sem qualquer esfor?o para disfar?ar. N?o que fosse necessário. A ruiva à sua frente n?o podia ver express?o nenhuma.

  Ela mal teve tempo de pegar o pano.

  O sangue sobre o balc?o se soltou da madeira, girou no ar como se tivesse vontade própria e voltou de uma vez para a boca de Eva.

  No mesmo instante, um soco desceu sobre o topo da cabe?a de Lúcia.

  — Eu lembro de ter dito pra deixarem o Copo Nunca Vazio limpo se n?o quisessem ir pra rua.

  Apesar da bronca, o ch?o atrás da recém-chegada contava outra história.

  Pegadas vermelhas marcavam o caminho da porta até o balc?o, manchando ainda mais o piso já bem acostumado com esse tipo de acidente.

  Lúcia n?o ficou para discutir o golpe.

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  Correu porta afora.

  Eva, no entanto, só tentou sorrir.

  — Achei que você ia demorar mais, Bia. Foi um deslize…

  Beatriz parou diante dela com as m?os na cintura, olhou ao redor e deu seu maior sorriso. Aproximou-se da ruiva e falou baixo, quase no ouvido.

  — N?o dá pra saber quando ele tá de olho.

  — Entendi… — respondeu Eva.

  Ela manteve o sorriso firme, mesmo sem entender direito o que aquilo significava. N?o era a primeira vez que ouvia aquele aviso estranho.

  Provavelmente também n?o seria a última.

  Satisfeita, Beatriz puxou uma cadeira e se jogou nela sem cerim?nia.

  Franziu o nariz.

  — Ela ainda tá ca?ando ratos?

  — Tá sim. O esgoto tá agitado ultimamente, ent?o tem bastante vaga.

  Eva hesitou antes de continuar.

  Apertou os punhos atrás do balc?o.

  — Bia… você realmente n?o pode treinar ela?

  Beatriz nem respondeu de imediato.

  Acendeu um cigarro amassado e estendeu a m?o para o balc?o. Eva encheu uma caneca e deslizou a bebida até ela.

  — O problema n?o é habilidade — disse a loira, por fim. — é serem de fora. Já te expliquei isso.

  — Mas, mesmo assim… já te vi no jornal mais de uma vez. Tenho certeza de que muita gente ia contratar a aprendiz de uma major do fronte.

  Beatriz bufou.

  Deu uma tragada longa.

  — O tipo de trabalho que ela ia conseguir ia feder muito mais que o atual. Confia em mim.

  — Mas…

  — N?o tem “mas”. — Beatriz cortou. — “Mercenária Bruxa” ainda pesa muito mais na cabe?a desses orelhudos do que “Major Beatriz”.

  A conversa morreu por alguns segundos.

  Eva decidiu engolir o resto do argumento.

  N?o podia pedir mais ajuda do que já recebia daquele casal.

  Beatriz terminou a tragada e soltou a fuma?a devagar. Depois observou a taverneira por um instante mais longo do que o normal.

  — Olha… — disse por fim, tomando um gole da cerveja de frutas. — O grand?o volta amanh?.

  Eva levantou a cabe?a imediatamente.

  — Ele vai ficar na taverna por um tempo. Aquela desgra?ada recuou com os piratas, e os batedores acham que vai levar pelo menos meio mês até ela reorganizar o ataque.

  Beatriz tamborilou os dedos na mesa.

  Parecia ponderar alguma coisa.

  — Tenho certeza de que vou me arrepender disso… — murmurou. — Mas se vocês convencerem ele, deixo dar umas dicas pra garota.

  — Jura?!

  O rosto de Eva mudou instantaneamente. O sorriso finalmente parecia real.

  — Juro. Mas já falei: só se convencerem ele.

  A ruiva continuou sorrindo.

  Contra o gentil Colosso, ela sabia muito bem que a batalha de persuas?o já estava ganha.

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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