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Capítulo 246 - Runas Rubras

  O primeiro golpe sempre levava toda a for?a.

  O corpo se punia caso hesitasse — as m?os formigavam por horas.

  Era um gesto de divis?o. Antes e depois. Quando o a?o cedia sob o impacto, o mundo ficava branco.

  O fogo lambeu seu rosto e quase levou junto os cabelos castanhos. O olho bom se estreitou com ferocidade contida. O outro girou sereno, enxergando o que o lado direito ignorava.

  A segunda martelada foi menos bruta, acertando como precisava acertar.

  Depois da terceira, o branco floresceu.

  — Malditas plantas…

  Martelou de novo.

  Flores. Folhas. Raízes.

  Nasciam pelas bordas da vis?o como rachaduras verdes atravessando a forja. Cresciam da bigorna, do ch?o, do próprio ar. Trepadeiras grossas se enroscavam no forno. Pétalas negras se abriam sob seus pés.

  Asha n?o ousava olhar diretamente.

  N?o com a presen?a que sentia por trás delas.

  — Sai daqui… sai daqui… sai daqui…

  O martelo acompanhava os murmúrios.

  às vezes funcionava.

  O que quer que fosse se dissipava como névoa esmagada pelo som do a?o, deixando apenas um arrepio na nuca. às vezes, no entanto, sentia a coisa se aproximar passo a passo.

  Hoje n?o foi um dos bons dias.

  Apertou os olhos. Prendeu a respira??o. Sentiu a presen?a acima da bigorna.

  “Ela se sentou?”

  O martelo girou num arco violento quando seu corpo se lan?ou para trás por reflexo.

  — Acorda.

  O corpo inteiro tremeu.

  “Falou?”

  Os dedos apertaram o cabo com for?a suficiente para embranquecer os nós.

  “Pelo menos um golpe bem dado eu vou dar nesse desgra?ado…”

  O bra?o recuou, preparando o giro.

  — Asha, acorda!

  Os olhos se arregalaram.

  O mundo voltou.

  O forno. A bigorna. O sal?o vazio.

  — Lina?

  — Quem mais ia ser, doida?

  Asha piscou duas vezes, o cora??o ainda acelerado.

  — Eu… é que…

  — Tá, tá, depois me explica. — Lina já se inclinava com olhos brilhantes. — Deixa eu ver logo isso aí.

  — Isso o quê?

  — A faca, mulher. A faca!

  Asha franziu o cenho.

  Olhou para baixo e só ent?o notou seu martelo no ch?o.

  Em sua m?o, uma faca militar negra descansava. Uma arma que n?o refletia a luz.

  “Quando terminei isso?”

  Passou o polegar pela lateral da lamina.

  — Que estranho…

  Devagar, estendeu a faca.

  Lina puxou de uma vez só. Ergueu a arma à altura dos olhos, bateu uma vez com a unha no metal, depois duas vezes com o chifre. O som foi limpo.

  — Se superou nessa, hein? O mestre vai gostar.

  Asha co?ou o pesco?o, sem jeito. Lan?ou um último olhar ao martelo no ch?o e deixou os ombros caírem.

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  — Nem ferrando que mostro isso pra ele. Só vai servir pro velho me dar mais trabalho.

  — E daí? Cê nasceu pra isso. — Depois de mais um giro da faca, a pequena mulher bateu com o dedo na própria m?o. — Ele se apaixonou por esses calos seus desde a primeira vez que viu.

  A ferreira exausta apenas assentiu. Se escorou no banco logo em seguida.

  — Mas e aí? — Lina continuou. — Posso ficar?

  — Fala como se minha opini?o fosse mudar alguma coisa.

  A mulher sorriu e se acomodou no ch?o, encostada na bigorna.

  — Obrigada, amore mio.

  Mandou um beijo exagerado no ar, depois desenrolou o conjunto de ferramentas preso ao cinto.

  Asha apoiou o cotovelo na bigorna.

  — N?o sei como você tem paciência pra essas runas. S?o uma chatice.

  — E bater em ferro é mais legal?

  — Lógico. Tem fogo, for?a… emo??o.

  — O poder da M?e também tem emo??o — Lina bufou.

  Pegou um bisturi médico um pouco mais robusto do que se esperaria de tal instrumento e encostou a ponta no fogo da fornalha até que o metal brilhasse num vermelho contido.

  Ergueu a faca, sorriu para Asha e lentamente come?ou a cortar a arma.

  No início, nada aconteceu.

  Porém, a repeti??o n?o parou. Logo pequenos sulcos se formaram — tra?os milimétricos que n?o eram cicatrizes, mas sim linhas elegantes. Agressivas no detalhe, mas harmoniosas no conjunto.

  Aos poucos, a ferramenta escureceu. Uma fuma?a fina escapou de dentro dela — n?o do fogo, mas do próprio metal. As marcas come?aram a brilhar com um negro mais profundo que o restante da lamina.

  Em meio a minutos que passavam apressados e camadas de runas que amea?avam se sobrepor, o estranho efeito se agitou. Parou de se concentrar no bisturi e tampouco retornou para Lina.

  A fuma?a moveu-se para a faca.

  Seguiu um tra?o por vez, preenchendo os sulcos como tinta viva.

  Quando as m?os da artes? finalmente cessaram, dois fios de sangue escorriam de seus olhos.

  — Isso ainda vai te matar. — Asha cruzou os bra?os.

  — Vai mesmo. E tá tudo bem.

  Lina soltou um sorriso pequeno.

  Encostou a lamina no próprio sangue escuro. A faca sugou de uma vez.

  Uma faixa vermelha nasceu entre as linhas negras, pulsando por um segundo antes de estabilizar.

  — Rejeitou? — Asha se inclinou, observando.

  — Um pouco… mas a maior parte entrou.

  A ferreira tomou a faca das m?os trêmulas dela.

  — Até que deu um charme — murmurou.

  Lina revirou os olhos.

  — Falhei de novo…

  — Deixa disso. As runas t?o perfeitas.

  — Ainda é uma falha. Um desrespeito com a M?e.

  Asha prendeu a faca no cinto. Levantou-se e puxou Lina pelos bra?os, erguendo-a.

  — Nem vem com essa depress?o hoje. Bora subior que o velho deve estar puto por eu ter ficado aqui o dia todo. Ele vai matar nós du…

  A porta explodiu para dentro.

  O estrondo ecoou pelo sal?o.

  Um homem entrou cambaleando, agarrando o próprio peito. Sangue jorrava da boca em goles grossos, quase mais do que da ferida aberta que tentava conter.

  Ele deu quatro passos antes de cair.

  N?o houve tempo para entender. Passos firmes cruzaram a porta logo atrás.

  A invasora, no entanto, foi quem arregalou os olhos ao atravessar o limiar.

  — Irm??

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  Estou meio sem tempo e n?o est?o saindo resultados bons...

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